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Um Oscar de melhores Oscars para estes Oscars

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O erro da academia de Hollywood faz sonhar. Mostra que o vencedor errado ainda pode ser obrigado a ceder o lugar, se os responsáveis pela eleição disserem: "Desculpem, isto foi tudo um lamentável engano." Foi a grande mensagem política da noite, e uma inspiração para a América

João Fazenda

Tal como Alexander Fleming descobriu a penicilina por acaso, remexendo nuns pratos bolorentos, também a academia dos Oscars pode ter encontrado, sem querer, uma excelente solução para um problema antigo. A maior parte dos nomeados perde tempo a escrever um discurso que acaba por não ter oportunidade de proferir. O facto de já terem podido desfilar na passadeira vermelha e referido o nome do costureiro que os vestiu– uma justa homenagem à indústria têxtil – não chega para os consolar. No modelo adoptado por engano no passado domingo, os nomeados vão ao palco, agradecem o prémio, e voltam a sentar-se. Na cerimónia deste ano isso aconteceu apenas uma vez, mas creio que a honra podia ser alargada a todos os nomeados. Consoante a qualidade do discurso de cada um, a Academia poderia até rever a decisão sobre o vencedor, retirando o prémio a um actor que represente bem mas agradeça mal, e distinguindo outro cujos dotes para agradecer e representar sejam mais homogéneos. 
E o espectador poderia assistir a cinco vezes mais homenagens aos pais, referências ao peso da estatueta, que continua a surpreender os premiados, 
e ao estado de nervos do galardoado.

Os Oscars fazem falta para premiar um tipo de indústria cinematográfica que não aprecia assim tanto o cinema. Boa parte das vezes, trata-se de atribuir uma estrela Michelin à melhor pastilha elástica. A ideia de premiar actores e actrizes em categorias separadas, mas não realizadores e realizadoras, ou editores de imagem e editoras de imagem, parece revelar que a representação, tal como o desporto, requer uma divisão de género. Mesmo assim, e uma vez que a cerimónia é tão curta, talvez pudesse haver mais subcategorias: o Oscar para melhor actor sub-23, ou para a melhor actriz sénior com salário acima de um milhão de dólares. A inclusão da faixa etária e da remuneração média ajudaria a premiar ainda mais actores, reduzindo o espaço dos profissionais que não interessam tanto, como os que os iluminam, penteiam ou lhes escrevem o que devem dizer.

O melhor de tudo foi isto: o erro da academia de Hollywood faz sonhar. Mostra que o vencedor errado ainda pode ser obrigado a ceder o lugar, se os responsáveis pela eleição disserem: "Desculpem, isto foi tudo um lamentável engano." Foi a grande mensagem política da noite, e uma inspiração para a América.

(Artigo publicado na VISÃO 1252 de 2 de março de 2017)