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Para uma filosofia do livro e da batata

Um filósofo, sendo amigo da sabedoria, pode, no entanto, ser inimigo da decência.

João Fazenda

Quando Manuel Maria Carrilho recusou apertar a mão a um adversário político, já depois de ter feito insinuações sobre o passado de toxicodependência de um outro, ficou a sensação geral de que talvez o ex-ministro da cultura fosse uma pessoa um pouco desagradável. Os anos seguintes encarregaram-se de desmentir essa ideia, e hoje é claro para toda a gente que Carrilho é uma pessoa mesmo muito desagradável. O actual julgamento que o opõe à ex-mulher tem confirmado essa convicção e contribuído para comprovar ainda que um filósofo, sendo amigo da sabedoria, pode, no entanto, ser inimigo da decência. Talvez a sabedoria tenha ciúmes da decência e não permita que o filósofo mantenha amizades paralelas com dois substantivos.

De acordo com os jornais, o depoimento de Carrilho perante a juíza continha revelações escabrosas e observações extravagantes. Gostaria de examinar as últimas, uma vez que não trouxe as luvas e a máscara para mexer nas primeiras. Carrilho alega que as acusações de que é alvo resultam do facto de ele ter abandonado a vida política contra a vontade da ex-mulher. É uma alegação surpreendente. Pessoalmente, não conheço ninguém que se opusesse a que Carrilho abandonasse a vida política, muito menos que quisesse castigá-lo por isso. Creio mesmo que, em toda a carreira do antigo ministro, nunca uma decisão sua foi tão bem acolhida, nem recebeu elogio tão generalizado, como a de abandonar a vida política. É muito duvidoso que Bárbara Guimarães estivesse tão desfasada do sentimento generalizado do povo português.

Outra declaração bastante bizarra foi esta: “Os livros, que são como meus filhos, foram metidos em caixotes como se fossem batatas.” Trata-se de uma frase que revela, sem margem para dúvidas, que Carrilho não percebe nada de livros, de filhos e de batatas. É uma fulgurante demonstração de ignorância que devia envergonhar um homem do saber e da cultura. Comecemos pelo fim: não faz sentido dizer que os livros foram metidos em caixotes como se fossem batatas, na medida em que as batatas não são transportadas em caixotes. Este é um dos mais graves problemas da filosofia: como pode um filósofo estar apto a investigar as categorias básicas do ser se, ao mesmo tempo, desconhece que as batatas se transportam em sacas? Não deveria a axiologia da saca preceder o estudo da ontologia da existência? São questões que a academia teima em evitar.

Em segundo lugar, deve dizer-se que o caixote é um meio bastante aceitável para proceder ao transporte de livros. De acordo com a minha experiência, a sugestão de os transportar em alcofinhas, tapados por uma manta quente e fofa, costuma ser mal recebida pelas empresas de mudanças.

Em terceiro lugar, a ideia de que os livros são como filhos parece um pouco inquietante. Se Carrilho tem os seus filhos arrumados em prateleiras por ordem alfabética do apelido do autor, talvez a segurança social devesse fazer-lhe uma visita. Se leva os livros a passear e lhes dá banho, convinha que um bibliotecário tivesse uma conversa séria com ele.