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Antigamente, uma pessoa com as ideias e a personalidade de Donald Trump não se candidatava a presidente dos Estados Unidos: tentava matar o presidente dos Estados Unidos

João Fazenda

Num país europeu, um candidato a presidente que se comportasse como Donald Trump perderia debates até contra uma cadeira vazia. Nos Estados Unidos, aguenta-se bastante bem contra uma candidata da qual se diz ser a mais bem preparada de sempre. No debate de segunda-feira, Hillary Clinton acusou Trump de não pagar impostos. Sabemos como, num país decente, ou até mesmo em Portugal, um candidato acusado de não cumprir os mais básicos deveres de cidadania reagiria: “Não lhe admito, sotôra. Isso é mentira. E é uma inverdade, também. Uma inverdade falsa, ainda por cima. Vamos discutir as grandes questões, sotôra; não entre pelo ataque pessoal, que não é isso que interessa às pessoas lá em casa.” A resposta de Trump foi ligeiramente diferente. Disse assim: “Isso significa que sou esperto.” Na Europa, o debate teria acabado ali e Clinton seria nomeada presidente na hora, porque toda a gente concordaria que não valia a pena gastar tempo e dinheiro numa eleição depois de um erro tão colossal. Nós também achamos que só os parvos é que pagam impostos, mas temos o bom senso de nunca o dizer em público. No entanto, nos Estados Unidos, é possível concorrer à presidência lastimando o estado das finanças públicas enquanto se adopta um comportamento que contribui para a degradação do estado das finanças públicas.

Mais adiante, Clinton fez nova acusação impensável: Trump não pagou a muitos dos trabalhadores que ajudaram a erguer o seu império imobiliário. Mais uma vez, o espectador europeu previu um desmentido enérgico: “Sotôra, isso é campanha suja. Pagar salários é das coisas mais belas do mundo, juntamente com o pôr-do-sol e o sorriso das crianças.” Trump voltou a surpreender: “Provavelmente, não fiquei satisfeito com o trabalho deles.” Vale a pena lembrar que uma das promessas de Trump é criar milhões de postos de trabalho. Creio que está a dizer a verdade: é mais fácil criar postos de trabalho quando não se pretende pagar salários.

Hillary também cometeu erros. Acusou o seu adversário de querer baixar os impostos para ricos como ele, o que só pode ser falso. Já tinha ficado estabelecido que Trump não paga impostos nenhuns, pelo que é impossível taxar abaixo de zero. Em segundo lugar, referiu, e bem, a obsessão de Trump pelo local de nascimento de Barack Obama. Mas, assim como, durante anos, Trump pediu para ver a certidão de nascimento do presidente americano, agora Clinton devia responder na mesma moeda e pedir para ver a certidão de óbito de Donald Trump. Trump é um senhor cor de laranja com o discurso e a aparência física de quem foi empalhado. É muito improvável que esteja vivo.

Antigamente, uma pessoa com as ideias e a personalidade de Donald Trump não se candidatava a presidente dos Estados Unidos: tentava matar o presidente dos Estados Unidos. Tenho saudades desses tempos. Estávamos todos mais seguros.