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O feice e o martelo

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As redes sociais são a grande vitória ideológica e a grande derrota comercial das revistas cor-de-rosa

João Fazenda

As redes sociais são a grande vitória ideológica e a grande derrota comercial das revistas cor-de-rosa.

Ideologicamente, as revistas ganharam: a ideia de que a vida privada deve manter-se privada, de facto, acabou. Do ponto de vista comercial, as revistas perderam: o trabalho (vamos dizer trabalho, para facilitar) dos paparazzi passou a valer menos ou nada, e não parece ser bom negócio pagar por uma publicação que promete revelações sobre a intimidade dos famosos quando eles a exibem gratuitamente no chamado feicebuque. Esta semana fiz uma visita guiada pelas redes sociais de diversas figuras famosas e recolhi estas notas:

– o filho de uma figura fez anos e vários coleguinhas, todos com a cara bem visível, cantaram-lhe os parabéns, conforme documenta um vídeo caseiro;

– outra figura, cuja filha faz desenhos muito lindos, anuncia o nome do ginásio que frequenta, a modalidade que lá pratica e o horário em que vai praticá-la. Para levar a cabo o projecto de despejar o tambor de um revólver nas costas de John Lennon, Mark Chapman teve de esperar o dia todo à porta do prédio do músico. Hoje teria podido organizar a sua vida de outra forma, e manter compromissos que tivesse de manhã;

– as coxas de cinco figuras estiveram na praia. É possível que o resto do corpo tenha lá estado também, mas não foi possível confirmar. Os pés de três outras figuras estiveram junto de piscinas;

– oito figuras são Testemunhas de Jeová de si mesmas e a boa nova é que vão estar em vários lançamentos, espectáculos e festas;

– um casal de figuras congratula-se com o facto de estar incógnito num destino desconhecido de todos. declaração está tão profusamente ilustrada de fotografias do destino que nem as coordenadas da latitude e longitude o identificariam melhor;

– doze figuras ingeriram inúmeras refeições nas últimas semanas. Todas as refeições eram extremamente fotogénicas. Havia 34 fotografias de sushi, 16 de nouvelle cuisine e 42 de cocktails, dos quais 31 eram gins tónicos com tomate cherry e pepino. Não havia quaisquer fotografias de uma chanfana com um copo de verde tinto;

– 27 figuras lamentaram que coisas bastante trágicas se passassem no mundo e 56 homenagearam um artista americano que faleceu. Malcriadamente, a família do artista não registou nem agradeceu a homenagem.

Todas, mas mesmo todas as figuras que resolveram fotografar-se estavam muito, mas mesmo muito contentes. O único que acabou por ficar acabrunhado fui eu. É cada vez mais óbvio que isto do feicebuque não é para mim.