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Dai a Centeno o que é de Centeno

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E ficou muito claro para todos que o Messias tinha dito “Pagai e não bufai”, mas de um modo mais elegante

João Fazenda

Então chegaram junto de Jesus uns fariseus que se interessavam por fiscalidade. E, talvez um pouco enfastiados de parábolas acerca do reino dos céus, quiseram saber a opinião do Messias a respeito do regime de tributação sobre dividendos agrícolas. E perguntaram-Lhe: “Mestre, devemos pagar o imposto a César ou não?” E Jesus disse: “Trazei-me uma moeda.” E os fariseus deram-Lhe uma moeda, embora com relutância, evidentemente, pois eram judeus. E então Jesus disse: “De quem é a figura que está nesta moeda?” E eles responderam: “É de César. Ainda precisais da moeda ou já podeis devolvê-la?” E Jesus disse: “Pois então dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” E ficou muito claro para todos que o Messias tinha dito “Pagai e não bufai”, mas de um modo mais elegante. E todos compreenderam que, embora tivesse vindo para nos salvar da morte, em relação aos impostos Ele nada podia fazer, pois a omnipotência tem limites e um deles é o fisco. E então passaram dois milénios de exegese bíblica, e ao que tudo indica aquela frase passou a ser interpretada como se Ele não tivesse dito “Dai a César o que é de César” mas sim “Tentai obter uma isenção fiscal total, por exemplo através da assinatura de uma Concordata.” E os imóveis da igreja católica passaram a estar isentos de IMI, incluindo os edifícios em cujas salas decorressem aulas de catequese. E aconteceu que, muitos anos depois de Jesus, o fisco veio a considerar que os edifícios e terrenos que a igreja arrenda a terceiros, ou que não utiliza para fins religiosos, não estão abrangidos pela Concordata. E houve grande lamento e ranger de dentes, porque as riquezas da igreja não contam como riquezas, tanto que Jesus contou a parábola do jovem rico e não a parábola da diocese rica, pois o Senhor deseja que os jovens ricos se despojem de todos os bens e que todas as dioceses ricas se despojem de todos os impostos sobre os bens. E, como os edifícios usados para fins religiosos estavam isentos de IMI, todos os contribuintes quiseram aceitar Cristo em seus corações, e transformar suas casas em templos, e ensinar catequese aos filhos em todas as assoalhadas, pois a promessa da vida eterna não os tinha convencido, mas a hipótese de uma isenção fiscal até converte o Diabo. Palavra da salvação.