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Clara Soares

Psicologia Quotidiana

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Viajar é um caso sério!

Com tanta mobilidade e normas de segurança, uma pessoa acaba por aderir à normalização da bagagem e da indumentária e, sem se dar conta, acaba por mudar a forma de estar e... de ser

A última vez que dei por mim, de madrugada, a percorrer o espaço amplo de um aeroporto, pousei o olhar no anúncio publicitário de uma companhia aérea. Ali estava a senhora, farda impecável, sapato de salto alto a condizer com o corte do conjunto saia-casaco e, claro, o cabelo impecável e a maquilhagem discreta. E logo ali comecei a viajar no tempo. De volta ao século XX, o que seria esperado ver num aeroporto?

Pessoas a circular com malas de tecido, todo o tipo de formatos. Senhoras com os seus necessaires sobre a mala grande, aliviando assim a mala de mão, geralmente de marca e com alça elegante e curta, a condizer com os sapatos de salto alto. Os senhores com os seus fatos, de trabalho ou de lazer, sapatos engraxados, ou então desportivos, de vela e um pólo de marca. Havia ainda o registo desportivo, com os sacos de tecido com trolley, que muitos conjugavam com a calça de ganga e o blusão de modelo recente. Em qualquer dos casos, havia uma certa aura em torno do ato de viajar e dos rituais que faziam parte.

Antes de existir o euro, era prática corrente, quase obrigatória, ir ao free shop comprar o perfume favorito e mais em conta. Ou cigarreiras, cigarros e cigarrilhas. Ainda se fumava dentro de um avião e ninguém se imaginava a usar os eletrónicos. Ou nenhuns. No século passado, não havia tantos voos, não se pensava em low cost e as agências de viagens tratavam dos bilhetes. Ainda não era práxis usar motores de busca na internet para comparar hotéis e serviços integrados. Nem se instalavam apps para consultar horários, comprar um lugar via mobile e proceder ao check-in eletrónico.

Os bilhetes vinham em capas elegantes. As folhas dos passaportes albergavam carimbos tão singulares como os destinos que lhe correspondiam. Viajar era uma ocasião especial. Merecia uma indumentária solene, um visual cuidado até ao mais ínfimo detalhe. Ah, e era comum levar a lima das unhas, o verniz e o kit com tesoura e agulha, caso fosse preciso dar um ponto numa peça de roupa.

De volta ao século XXI. Ali estava eu, pronta para o “security check”. Na véspera, tinha feito um ultimato a mim mesma: acabar de vez com as toilettes, uma peça para cada dia, mais do que um par de sapatos e vários livros que não chegaria a ler. Minimalismo auto imposto.

Tudo começou com uma viagem em que a mala de porão se extraviou, com os produtos de higiene pessoal lá dentro. Depois do primeiro embate, descobri como era possível e, talvez, desejável, passar sem extras e carregos. Caso não o tivesse feito, a vida - as regras globais da aviação - havia de conduzir-me até lá. Já não basta restringir-se à mala de cabine: ela tem de ter aquelas medidas e mais nenhumas. E se for para certos destinos, é bom que tenha aquela fechadura especial - e que custa uma pipa de massa - para poder ser aberta e fiscalizada sem necessidade de arrombá-la. Quanto a estojos de manicure e kits de maquilhagem, nada disso é “necessaire”. O que era essencial passou à categoria de acessório. E mesmo desaconselhado ou interdito. Há que reduzir os produtos de higiene pessoal ao mínimo, ou seja, a amostras embaladas num saco específico, como manda o código. Lá passei o “security check”, depois do check-in online e com a devida antecedência (uma vez facilitei como se ainda estivesse no século XX e já não me deixaram embarcar), sem dramas de overbooking.

Tudo tranquilo nas lojas do aeroporto. A cada época as suas modas. Agora são as almofadas para colocar à volta do pescoço, que parecem ter grande saída entre alguns passageiros. E por falar em passageiros, olhei à volta. Eles são agora em maior número e de todas as idades e proveniências. Quase todos, sem exceção, olham para os painéis eletrónicos com as portas de embarque e as chegadas e partidas. Lêem as notícias nos telemóveis e tablets. Há quem aproveite para carregá-los nas colunas espalhadas pelas zonas livres com wi-fi.

Quase ninguém se veste a preceito, como diria a minha avó. Ou o preceito é já outro. Quem “manda” na indumentária, no “uniforme”, é também a indústria desportiva. Estão em alta as mochilas nórdicas e as americanas (no caso das últimas, a marca tem muitos adeptos no que se refere ao vestuário). E os ténis e sandálias desportivas com design. Tudo muito “casual”, muito “light”.

Vendo bem, eu mesma me senti outra. E estou agora outra. Não carrego mala de mão à tiracolo (as minhas costas agradecem) nem o mais que interdito “necessaire”. A pequena mochila, que não é de marca nórdica, deixa-me as mãos livres. A nova mala de cabine, com as medidas xpto e em material rígido, desliza sem que eu tenha de fazer grande esforço muscular, graças ao modelo quatro rodas, bastante mais ergonómico (ou deverei dizer aerodinâmico?). Talvez não seja só da mala. Talvez seja do impacto de todas estas coisas a que uma pessoa se adapta ao ponto de passarem a ser uma parte dela.

Desapareceram - ou deixei ir - os sentimentos de indignação e revolta por ter de acatar das normas a seguir se não quisesse ficar com os pés em terra. Pela primeira vez, decidi deixar em casa os sapatinhos com cunha e experimentei andar com ténis. Além deles, só um par de sandálias próprias para andar nas rochas e fazer caminhadas. Aderi à fórmula “dois pares de calças, quatro peças para usar com elas, uma camisola para dias mais frescos e uma écharpe”. Transporto no corpo um casaco de malha de algodão e um impermeável curto e desportivo. Aderi ao “uniforme”. E gostei.

O mais difícil foi renunciar aos livros. "Troquei” o papel pelo Kindle, que traz menos esforço aos olhos do que os écrãs dos telefones e dos tablets. Aprendo a desfrutar deste sentimento de leveza. Só custou no início. Parecia que me faltavam coisas. Parecia que nem ia viajar “a sério”. Contudo, experimentei esse sentimento a que chamam “alma de viajante”. E já não quero outra coisa.