Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Ter e fazer amigos já não é o que era

Psicologia Quotidiana

Clara Soares

  • 333

Nunca estivemos tão ligados e tão conscientes de nos sentirmos sós. O que fazer? Talvez uma app...

All the lonely people, where do they all come from?

All the lonely people, where do they all belong?

The Beatles, Eleanor Rigby, 1966

Lembro-me de quando era interpelada por uma colega de escola no recreio: “Queres ser minha amiga?” Eu, que nunca fui de conter o verbo, não tinha coragem para tanto: ir direta ao assunto, sem rodeios nem receio da rejeição. Ao longo dos anos questionei-me sobre o poder da amizade e as vantagens que ela tem sobre o amor e a paixão.

Na amizade cabe tudo, ou quase tudo, e parece que não existem fronteiras tão estanques como na vida amorosa. Uma vez, e a brincar, dei por mim a dizer que ser amigo dá tanto prazer, ou mais, que um flirt e permite uma liberdade substancialmente maior e sem a pressão associada à exclusividade, ao ser “o(a) tal”: amante, namorado(a) ou cônjuge (outros sinónimos: “marido”, “mulher”, “sócio”, “patroa”, “companheiro(a)”, ficando intencionalmente excluída a expressão “cara metade”).

À não obrigatoriedade de ter uma pessoa amiga em exclusivo, associa-se a vantagem de poderem incluir-se na Amizade vários graus de intimidade que coexistem harmoniosamente.

Grandes, Pequenas e Assim-assim

Nas amizades ditas mais próximas, há aquelas que, para o melhor e para o pior, costumamos dizer que são “para a vida”: sabem quase tudo de nós – ou seja, o mais importante – e testemunham as nossas grandes mudanças. Conhecem-nos melhor e mais profundamente do que a pessoa que dorme ao nosso lado. Não precisamos dizer que são o(a) melhor amigo(a). Neste cenário, não há lugar para o conceito de “cobrança” e, caso entre em cena, essa “falha” não chega a passar incólume pelos pingos da chuva. A intimidade deste tipo de ligação terá muito de incondicional – há quem compare as grandes amizades ao amor entre pais e filhos, diferindo deste apenas por serem recíprocas e paritárias.

Alargando o círculo e partindo das ligações mais próximas – não me refiro à distância nem ao espaço geográfico, que já foram mais importantes na era pré-digital – para as que estabelecemos no quotidiano, encontramos a tal rede de amigos, onde a diversidade é a regra (ou deveria ser, na idade adulta): a pessoa A não se enciuma se a pessoa B, sua amiga de noitadas, tem encontros regulares com outras duas para fazer biodanza ou caminhadas ao ar livre. Os companheiros de clube, de partido, de festivais, de férias, de patuscadas e jantares caseiros gourmet ou dos lanches e jantares chillout com conversa da má língua à mistura, raramente se atropelam uns aos outros e, caso se encontrem numa festa de aniversário com números redondos ou num funeral, raramente, ou praticamente nunca, se sentem como “a outra” ou “o outro”, o terceiro excluído.

Por fim, na orla mais afastada do círculo, concentram-se os amigos que, em rigor, nunca o foram mas são potenciais candidatos ao estatuto, os que já foram mas deixaram de ser por razões várias e os que sempre foram só isso: conhecidos (e, porque não, fãs, que nos seguem nas redes sociais ou vão dando feedback porque se identificaram com coisas que dissemos publicamente ou fizémos, e aproximam-se de nós pelos muitos canais e plataformas onde circulamos hoje). São ainda aqueles que têm uma presença ocasional, facilitada pelas circunstâncias, às vezes por interesses comuns e afinidades intelectuais, outras vezes por proximidade (caso típico: o casal que vive perto cujo filho brinca com o nossa na escola ou numa atividade extra curricular e lá estamos nós juntos, com frequência, à conta dos garotos…).

A Ocasião e a Solidão

“Os amigos são para as ocasiões”. Ai são? E explicar isso um pouco melhor? Para quando precisamos, quando adoecemos, quando não temos companhia?

A ideia de eles serem uma espécie de Funcionalidade, de desempenharem um papel utilitário, sempre me soou a pouco. Porém, este caráter funcional parece estar a virar do avesso os conceitos de amizade (e do grau de proximidade associada e a forma como se manifesta, na prática). Dispensamos parte do nosso tempo a avaliar as mensagens visuais ou de texto que publicam todas as pessoas , a retribuir convites virtuais – que podem vir a ser reais ou nunca o ser, porque substituem a nossa presença física e achamos que está muito bem assim, pois o tempo é um conceito democrático: pode ser mais elástico para uns do que para outros, mas o dia continua a ter 24 horas e nós, seres da terceira dimensão (apesar da web2.0 e da rede 4G).

Dos colegas de trabalho aos amigos e parentes, próximos ou afastados, passando por todos aqueles com quem já tivemos, temos ou podemos vir a ter projetos em comum, a todos podemos encontrar na multiplataforma. Quem não está numa rede social nem faz networking é olhado de lado, por não se envolver, por ser estranho ou do contra. E, contudo, é constrangedora a forma como todos nos perdemos no mar de streaming, de scrolling, de interações ao segundo. “Quem é que me disse aquilo? Quando?” ou “Ah, pois… desculpa, foste tu… mas isso não tinha sido a… como é que se chama… olha, deixa lá, não é pessoal”.

O que dizer dos estudos que consistentemente referem que o nosso círculo de amigos encolhe à medida que avançamos na linha do tempo? Será mesmo assim? Uma consequência da Síndrome da PDI (“p*** da idade”) ou, adotando ainda uma atitude lúdica, dos efeitos secundários e incontornáveis da DNA (“data de nascimento avançada”)?

Nem tanto. Se há algumas décadas as amizades ficavam sacrificadas porque “cada um vai à sua vida” e cada etapa finalizada era sinónimo de despedidas (ou afastamentos e perdas) - o fim dos estudos, o casamento e a constituição de família e as responsabilidades profissionais e familiares – agora a “culpa” desta descontinuidade é atribuída à Mobilidade que, como bem sabemos, é transversal a qualquer idade. Viaja-se mais, circula-se mais, há mais círculos a que se pertence e todas as áreas da vida (amor, casa, trabalho, família) estão sujeitas a deslocalizações, incerteza e disputam tempo (em quantidade e qualidade) no meio de incontáveis solicitações que constituem a vida de um cidadão digital.

O que fazer, quando os contactos se perdem na voragem dos dias e dos cliques? Como lidar com os efeitos adversos da Comparação decorrentes de estarmos imersos nos media sociais? E de sentirmos, mais vezes do que menos, que os outros estão na ‘pool position’ e nós, cada vez mais sós?

Melhor do que a coisa em si? A sério?

Nada como curar-se de um veneno com doses do mesmo veneno. Inoculando-se. E se a tecnologia está no meio de nós, porque não usá-la para “caçar amigos”, se o princípio resulta para ir à procura do tal ou da tal (sites e apps de encontros)?

Do Meetup, que está presente em quase todos os países do planeta, até aos seus sucedâneos, o que as evidências sugerem é que “sim, queremos técnicas para fabricar amigos”. Insólito, no mínimo, para a geração dos nossos avós. Ou até para nós, os que não nasceram com o digital mas vivem nele e com ele. Gigantes tecnológicos como o Tinder e o Bumble, apps para encontros, estão a investir no grande negócio do século: encontrar, virtualmente, pessoas que possamos vir a conhecer pessoalmente e… ser amigos.

Tendo nós perdido a capacidade que nos levava, em crianças, a pedir face-a-face a alguém, “queres ser meu amigo?” ou “quero ser teu amigo”, temos agora apps como a BFF (Best Friends Forever)

e o Hey Vina! (esta app só dirigida a mulheres) para alargar – em vez de encolher – o circulo de amigos que, como o ar que respiramos, nos é essencial para nos sentirmos gente. Especialmente quando mudamos de casa, de concelho, de país; quando viajamos em trabalho e lazer e não temos companhia; quando precisamos de ter (ou ser?) amigos outra vez, depois de nos termos acomodado a uma relação exclusiva que acabou, a um estatuto que deixou de sê-lo (emigrante, pais com filhos menores e amigos de casais em igual circunstância, etc) ou de começar de novo uma vida a solo ou nem por isso, noutro lugar ou com novas referências, por escolha ou circunstância.

Se a amizade ainda começa por ser ir ao encontro de, sair da zona de conforto e não desistir de crescer, dentro de si e na presença dos outros, venham de lá essas “socializadoras tecnológicas”. As apps são o que fazemos delas. E elas, por estranhas que possam parecer, estão a conquistar adeptos e a derrubar um estigma que ninguém admite ter: o da solidão em tempos de interconexão.

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Quis ser veterinária mas o fascínio pelas singularidades da mente humana falou mais alto. Tem um mestrado em Psicologia da Saúde e cultiva o gosto pelas caminhadas. É colaboradora da Visão desde 1999, onde se dedica ao jornalismo de comportamento, que concilia com a prática clínica. Passou pela TSF, TVI e Máxima. Coautora do livro Vencer nos Exames (Sebenta, 2008, escrito com Teresa Campos) e blogger. Segue com interesse a forma como nos relacionamos, uns com os outros e com as tecnologias. Acredita que a vida é o que, a cada momento, fazemos dela.