Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Clara Soares

Psicologia Quotidiana

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Diz-me como te separas, dir-te-ei quem és

  • 333

GettyImages

O que fazemos quando deixamos, somos deixados ou percebemos que o caminho que nos uniu chegou ao fim. Ou como as formas de dizer e lidar com as despedidas nos definem

.

"E depois de nós, o adeus, o ficarmos sós".

Paulo de Carvalho

Há muitas formas de dizer adeus

Algumas ainda acontecem no registo cara a cara. Na sala, no quarto, à volta de uma mesa de café. Constata-se o que se tornou óbvio, o que ainda não tinha sido dito e passa, então, a ter uma existência real. Anuncia-se o fim. “É melhor assim, amigos como dantes”. Porém, a canção do adeus faz-se, cada vez mais, por via digital, esse procedimento (ou ritual?) asséptico com menos dor, segundo se diz, sem grandes penas e, idealmente, com pouco ou nenhum rancor. Ficam as sinfonias, as memórias dos tempos em dueto, de um “nós” que soube a muito. Ou a pouco. Mas que soube bem. Tão bem que não chega a ser preciso mudar a chave da porta, a password ou as configurações da vida em rede. “Nada sabemos do hoje, menos ainda do amanhã.” Adultos são adultos. Os crescidos continuam a ser crianças: mantêm viva a capacidade de brincar e de reinventar. E, por exemplo, trautear o 50 ways to leave your lover numa festa de amigos comuns.

“Lamento, mas acabou.” Quando um não quer, dois não dançam. Paradoxalmente, o adeus digital que facilita o esquecimento é o mesmo que dificulta o luto, penoso para quem deixa. Mais ainda para quem fica e se sente excluído, como uma presença acessória que é esmagada pela força da palavra escrita, dessa mensagem “mal dita”. Porque as abreviaturas, siglas, imojis e reticências são fracos substitutos da voz. Do corpo. Da troca de olhares. Porque a ausência de gritos, lágrimas e de tudo o que soe a dor e desconforto também tem efeitos adversos com ação prolongada, como sucede com a ruminação e o conflito velado sem fim à vista. É assim que tantos deixam de dançar, sem o desconfortável - mas reconfortante – calor de um abraço. “Só mais um, para a despedida”. Talvez fosse mais são viver a coisa em pleno. Partir a loiça, sem cerimónia nem comedimento, libertar-se e aceitar que tudo passa. E que é tempo de partir para outra.

Na volátil dimensão wi-fi em que (quase) todos vivemos, o fim já não se anuncia. Numa versão radical, dizer adeus é não fazer nada e permanecer ausente: não aparecer, não teclar, não deixar recado por terceiros. São os ‘likes’ que deixam de marcar presença. As trocas de pixéis que se esfumam, num apagão involuntário, porque alguém se descorresponde da app. Ou remove a sua pegada social sem contemplações. Ou bloqueia o acesso à sua morada (mural), erguendo muros invisíveis, por vezes inexplicáveis, que geram reações entre o choque, a perplexidade, a fome de confronto e a sede de vingança. “Onde estás, que não estou no teu radar?” Nada. A ausência, o não dar sinal, é a maneira mais básica e inequívoca de terminar o que quer que ligue dois caminhantes. Porém, sem um funeral condigno, não há morte, só vida suspensa. Até haver prova em contrário.

O Fim: perfis e cenários possíveis

Evoluir também é isto: por cada passo dado em frente, há outro que fica para trás. Deixar para trás lugares onde já fomos felizes. Descontinuar experiências que não têm lugar num futuro sonhado. Pessoas que se perdem no caminho e ficam em parte incerta. Que não voltam a reencontrar-se, mesmo que o queiram muito, seja por diferenças de ritmo ou divergências de vontades. E de verdades. Há partilhas que nunca saberemos antecipar e que podem ser mesmo as últimas.

I. Liberdade sem Medo, com um “final feliz”

Cena: “Fica bem, que eu também (depois disto tudo que passámos juntos)”. “Fico feliz por ti, só quero que o sejas como eu sou (ou desejo e sei que posso ser)”

Guião: Explicam-se, esgotam o assunto e seguem em frente sem dramas, até que possam voltar a dançar (os mesmos, num novo registo, ou com outro alguém)

Possibilidades: Amigos, BFF, ou outro estatuto não catalogável. Partilham a paz desprendida e voltam aos treinos sem mágoas nem constrangimentos

II. A Arte da Guerra, com cessar-fogo e tréguas

Cena: “Não és tu, sou eu.” “Quiseste-me, aguenta-te.” São donos da luta, mas nem sempre são donos de si

Guião: Alternam entre dar tampa sem rodeios e comportamentos dissimulados, do amuo à cobrança. Caso percam a compostura e resvalem, pouco fica de pé

Possibilidades: Com catarse e bom senso, ergue-se a bandeira da paz. Leva tempo e implica deixar o hábito da intermitência (os “junta e separa”)

III. Desaparecidos (s)em combate, com mais ou menos Ghosting

Cena: “Falamos depois.” [zzzz… nada]. Mais perguntas. Mais silêncio e tentativas vãs para quebrá-lo. “Fiz algo que não devia?” “Estás bem?” “Estás parvo(a)?”

Guião: O desfecho que não chega a sê-lo. “Desapareci” vs “desapareceste-me”. “Já fui” vs “Já foste.” A gente não discute. Nem (se) quer magoar. Como os fantasmas

Possibilidades: Culpabilizar-se e iludir-se por doer menos do que aceitar o fim. Usar o silêncio como única saída para lidar com uma presença ‘demasiado’ real

Encerro com a afirmação lapidar de Dan Savage, um dos mais famosos conselheiros sexuais da América: “O fecho não é uma coisa que nos acontece, é algo que fazemos”. E fazemos bem, ou melhor, à medida que o tempo passa e aprendemos nas horas.

A cada fim, o seu princípio. E quem não aprecia um bom começo que se acuse.