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Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Sabes mesmo o que te faz feliz?

Psicologia Quotidiana

Clara Soares

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Quando fazemos prognósticos antes do fim do jogo, os cálculos saem furados. Os cálculos são as nossas projeções mentais e o jogo é a nossa vida. Não querer ir a todas pode ser um bom começo

Se há coisa de distinga os humanos das outras espécies, essa coisa dá pelo nome de consciência. Graças a ela podemos pensar, construir cenários futuros e simular resultados para possíveis escolhas, das mais elementares às mais complexas: Um gelado ou imperial com tremoços? Começar a trabalhar ou ter um Gap Year? Viver juntos ou cada um em sua casa? Mudar de casa agora ou daqui a um ano? Escolho, logo existo.

Há quem tenha propensão para tomar decisões racionais e quem só se sinta bem quando segue o coração, ou a emoção, no momento de eleger uma opção. Seja qual for o caso, entre uma escolha definitiva e outra que comporta uma margem de liberdade para poder voltar atrás após uma segunda avaliação, porventura mais a frio ou mais à frente no tempo, será de admitir que a maioria de nós tenderá a optar pela segunda hipótese.

Basta olhar para o sistema de trocas que vigora nas cadeias de materiais para casa e decoração, nas lojas de vestuário e nos supermercados. O cliente - perdão, consumidor - tem sempre razão. Ou seja, direito a ter outra posição. A usar a liberdade que lhe é concedida para mudar de ideias e revogar as escolhas feitas, dentro de um certo prazo. Isso sim, é qualidade de vida. Será?

A ilusão da diversidade

Ocorre-me a angústia dos indecisos diante de uma prateleira com vários metros de comprimento, repleta de pastas dentífricas. Ou a desorientação própria dos dias que se seguem às festividades natalícias, em lojas cheias de gente a trocar prendas por mil e um motivos. Por exemplo, percorrer as pechinchas anunciadas nas montras e sondar as alternativas ao presente recebido com o “brinde” do talão “para a troca”. Mesmo que se tenha pedido o que agora é nosso, goste-se e nos sirva mesmo a matar, há pessoas para as quais o problema nunca foi – nem será - a indecisão, mas sim a tentação de espreitar o que está à volta e certificar-se de que não há mesmo nada mais estimulante à espera, na próxima esquina.

Essa sede de estar sempre na posse da escolha, como na posse da bola, pode converter-se num vício que talvez se explique pela sensação de liberdade que só uma escolha sem caráter definitivo pode dar. Pelo “high” que se dá no cérebro, quando generosas doses de dopamina e serotonina entram em campo e nos fazem sentir em modo “boa onda”. Aquele prazer do “agora quero, agora não”, que se traduz em constantes alterações de última hora (e da torrente de mensagens virtuais que se lhe segue). Como saber – e medir – se somos mais felizes desse modo? Pensei na expressão do momento (não, não é “Freud Explica”) e que dá resposta a quase tudo: “Há uma app para isso.” Não encontrei. Mas a Google fez-me saber que há uma TED Talk para isso. Para nos contar como não é de liberdade que falamos quando falamos em múltiplas escolhas ao nosso alcance, mas sim de ilusão.

Mais opções? É melhor esquecê-las

Famoso pela sua TED Talk e o livro Stumbling on Happiness (tropeçar na felicidade, publicado originalmente em 2005), o psicólogo social americano Dan Gilbert, da universidade de Harvard, argumenta que tendemos a ter crenças erradas sobre aquilo que achamos que nos faz mais felizes. Ou simplesmente felizes. Isto acontece porquê? Esclarece o investigador que nos espalhamos em toda a linha quando nos empenhamos em prever a forma como vamos sentir-nos em circunstâncias futuras. E como poderia ser de outro modo? Senão vejamos:

1º Não há nada mais volátil que as emoções. 2º Quando pensamos em nós no futuro não estamos a ter em conta a forma como nos iremos sentir então, apenas contamos com as referências afetivas do presente. 3º Racionalizar acaba por ser a maneira de lidar com uma escolha: quanto mais definitivo o seu caráter, mais nos convencemos de que a alternativa deixada para trás seria sempre pior. Conclusão: a mente encontra sempre um caminho criativo para olhar o mundo e criar uma história em torno dele. Aquele carro em segunda mão que acabou por ser a escolha final no stand de usados foi, de facto, a melhor opção de todas, “porque é meu e por alguma razão o escolhi em vez dos outros que, de início, nem lhe ficavam atrás.”

Amar livremente não garante felicidade

Narrativas como esta tem um enorme valor adaptativo: o seu desfecho é à prova de ruminação, esse inquietante desfiar de possibilidades entre duas ou mais escolhas e a angústia de, qualquer que seja o passo dado, pode nunca ser “o tal”, o melhor, o único e feito à medida. Comentário possível: “Temos pena.” Os estudos laboratoriais com universitários colocados em cenários diversos, envolvendo grupos experimentais e de controlo e tarefas que implicavam diferentes tipos de decisão, confirmaram a dura verdade:

“Uma escolha irrevogável, definitiva, liberta a mente do labirinto das alternativas.” A revelação que Dan Gilbert fez recentemente numa das edições de Hidden Brain, podcast conduzido pelo jornalista de ciência Shankar Vedantam, teve tanto de inédito como de divertido. “Que tipo de cientista seria eu, se não aplicasse os resultados à minha vida?” E se assim pensou, melhor o fez. A sua união de facto já durava há uma década. Foi para casa e propôs casamento à companheira. Era a morte anunciada do paradigma “devo partir ou ficar?” que assombrava os seus dias e anos. Inquirido pelo jornalista acerca de qual era a sensação que tinha agora, Dan brincou com este assunto sério: “Agora que não posso fugir, até parece que a amo mais!”

Depois disto, apetece perguntar: o que fazer diante da fantasia omnipotente de que podemos ir a todas? O que fazer quando não somos bons a antecipar com precisão os detalhes do futuro e a forma como seremos e viveremos a experiência nesse amanhã incerto? Provavelmente, o melhor a fazer é admitir que nós, criaturas capazes de imaginar e de errar, aprenderemos, com a passagem do tempo, que vamos continuar a prever e, como bons humanos, voltar a falhar as nossas melhores previsões. Quanto à felicidade, nada como simplificar e deixar ir o resto, o que fica para trás depois de dar um passo firme no desconhecido. Para poder dizer, com propriedade e uma expressão feliz: “Foi mesmo melhor assim, foi o melhor para mim.”

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Quis ser veterinária mas o fascínio pelas singularidades da mente humana falou mais alto. Tem um mestrado em Psicologia da Saúde e cultiva o gosto pelas caminhadas. É colaboradora da Visão desde 1999, onde se dedica ao jornalismo de comportamento, que concilia com a prática clínica. Passou pela TSF, TVI e Máxima. Coautora do livro Vencer nos Exames (Sebenta, 2008, escrito com Teresa Campos) e blogger. Segue com interesse a forma como nos relacionamos, uns com os outros e com as tecnologias. Acredita que a vida é o que, a cada momento, fazemos dela.