Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Psicadélicos em micro doses

É o novo 'doping' para a criatividade, sobretudo entre jovens profissionais da área tecnológica

Quando entrei para a faculdade, no início dos anos oitenta, falava-se em speeds. Os fármacos estimulantes (como o metilfenidato) prescritos para inibir o apetite nas dietas para perder peso, eram igualmente usados com finalidades lúdicas e "droga de estudo", para manter a pestana aberta nas vésperas de exame e entrega de trabalhos académicos.

Depois da febre das anfetaminas, do ecstasy e do boom das smartshops, as drogas psicadélicas voltam a dar que falar: Desta vez a revolução parece estar nas micro doses de LSD (entre 10 a 20 microgramas), que estão a converter-se num culto junto dos criativos da área tecnológica (Silicon Valley à cabeça). A meta? Promover novas conexões cerebrais e facilitar o pensamento disruptivo no campo da programação.

A popularidade do fenómeno deve-se, em boa parte, ao psicólogo americano James Fadiman, investigador em Palo Alto, que há quatro anos descreveu os efeitos da micro dosagem no Guia do Explorador Psicadélico. Depois disso, o jovem holandês Martijn Schirp, antigo jogador de póquer e ex estudante de física aplicada e colaborador do site HighExistence.com, fez o resto. Numa entrevista à LiveScience, Schirp explicou que as micro doses de LSD permitiam aumentar a vitalidade e as capacidades percetivas e de foco, além das competências criativas e a espirituais, sem os inconvenientes alucinogénios associados às dosagens clássicas. Por isso as consumia regularmente em atividades que iam da meditação e yoga à escrita e pintura.

Será este um revivalismo da cultura hippie, em versão século XXI? Ou a revisitação de um clássico da natureza humana, que ao longo dos tempos sempre quis romper barreiras mentais e alcançar novos níveis de consciência, induzidas por substâncias e rituais? As experiências sobre os efeitos do uso - recreativo, criativo ou outro - de drogas psicadélicas, remontam à década de cinquenta, quando o LSD era legal nos Estados unidos e a CIA o administrava a prisioneiros e prostitutas (sem o consentimento destes), num projeto de controlo mental conhecido como MKULTRA.

Porem, a droga produzida pelo laboratório suíço Sandoz viria a ser considerada ilegal (1966), sendo foi entretanto proibida nos EUA em 1967, mas a sua aura nunca desapareceu, ficando para sempre conotada com o universo artístico (bandas mundialmente conhecidas como os Beatles, Pink Floyd, Doors, escritores visionários como Aldous Huxley ou o pintor Salvador Dali, próximo do 'guru' Timothy Leary), mas também ligada ao meio científico. Basta lembrar que o Nobel Francis Crick visualizou a estrutura helicoidal do ADN sob influência da dietilamida do ácido lisérgico. Ou que o mítico Steve Jobs, o homem da Apple, considerou decisiva a experiência com a substância para as suas descobertas, enquanto universitário na área tecnológica.

Voltando aos especialistas em IT. O recurso à expansão da consciência via micro doses parece ser tão banal no meio das startups tecnológicas como o 'doping' no meio desportivo de alta competição. Não é por acaso que esta prática consta na ficção Silicon Valley e que os veteranos no ramo da inovação insistem demonstrar que funciona. Palavra do engenheiro da CISCO, Kevin Herbert, que aos 51 anos revelou à CNN ser consumidor regular da substância, desde o início da sua vida adulta. A primeira vez que o fez foi durante uma convenção de ficção cientifica, no M.I.T. e desde então mantém essa rotina, para "hackear os limites do pensamento". As pesquisas do Imperial College London parecem dar-lhe razão: o LSD quebra determinados circuitos e permite a formação de novos padrões cerebrais.

Se a dosagem média tinha um nível de toxicidade mínima, mas não desprezível, o que dizer das micro doses (20% da dosagem média, de 50 microgramas)? Os adeptos defendem que as vantagens suplantam largamente os riscos potenciais. A diferença, face ao século passado, é que o uso de psicadélicos em micro doses não está tão centrado na finalidade recreativa e experimental, mas antes na sua função de "catalisador do trabalho", como se pode ler na Forbes. Será que nos preparamos para assistir ao início de um movimento de legalização do LSD, psilocibina (vulgo cogumelos mágicos) e similares?