Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Catarina Martins e Marine Le Pen estão numa relação

FRANCOIS GUILLOT/ Getty Images

A chantagem que o Bloco de Esquerda, devidamente acompanhado pelo PCP, fez sobre os promotores da Web Summit é alicerçada no mesmíssimo argumento que a Frente Nacional esgrime em França para defender as suas bandeiras mais visíveis: o da intolerância. E isso tem de dizer alguma coisa sobre a sua natureza

Em Março deste ano, o pastor evangélico brasileiro Marco Feliciano, deputado federal pelo partido Podemos, ao comentar num programa de rádio o caso da execução a tiro da vereadora e combatente pelos direitos humanos Marielle Franco, lembrou-se de afirmar que “um esquerdista demora uma semana para morrer porque a munição fica procurando o cérebro da pessoa”. A demonstração de idiotia gratuita resultou em sorrisos envergonhados entre os comparsas da agremiação a que pertence e gerou uma onda de choque e pavor no país, impulsionada pelos radicais de esquerda, que – justamente - não perderam tempo a sublinhar até ao limite da insanidade as diferenças “fracturantes” entre os “idealistas” de esquerda e os “algozes” da direita. Houve, porém, também quem colocasse a cabeça acima do folclore em curso e fizesse uma pergunta importante: será que um extremista de esquerda seria incapaz de dizer exactamente o mesmo relativamente a um rival de direita?

Com a devida vénia aos radicais de esquerda, a resposta é não. Por mais que se divirtam a sublinhar o fosso que as separa, a verdade é que a esquerda e a direita radical não são assim tão díspares – no Brasil, nos Estados Unidos (onde alguns grupos de esquerda são cada vez mais uma preocupação das autoridades por causa escalada de violência já comparável, em meios e voracidade, ao Ku Klux Klan) e na Europa, onde, com a excepção dos temas da xenofobia e da imigração, o seu discurso não é na substância (e na forma) claramente dissonante. Estão juntos na demonização da NATO, na “repugnância” que experimentam em relação à comunicação social, na crítica aos cultos religiosos, na denúncia do “despotismo” do Banco Central Europeu e do “circo” que é a Comissão Europeia. Vandalizam ainda a Política Agrícola Comum, a moeda única, o fim das fronteiras económicas e a “ditadura” financeira em que vivemos. O facto de não apresentarem alternativas, digamos, apresentáveis para qualquer das “calamidades” acima identificadas é considerado um detalhe, porque, apesar de jurarem o inverso, o que para eles conta não são as “ideias”, são os fins – e neste particular a destruição da União Europeia, das regras e princípios que lhe estão adjacentes, é um objectivo comum que explica convergências improváveis como a que aconteceu com o Syriza e a direita radical na Grécia, por exemplo, mas não só.

Claro que a “Europa” não é inocente nesta história. Tal como os extremos ideológico-partidários não têm dado provas de especial inteligência para compreender que o mundo mudou muito nos últimos 50 anos, também os políticos do arco do poder pouco fizeram para prevenir a actual decadência do “ideal europeu” imaginado pelos fundadores da CEE. O que se vê hoje em Bruxelas são provas de miopia acelerada, de amorfismo político endémico, de elevada decrepitude institucional e de alguma tendência para cair em precipícios político-emocionais. O resultado é o que se vê: uma perigosa escalada de desconfiança por parte dos cidadãos em relação aos políticos e aos partidos tradicionais – aqueles que são responsáveis pelo Processo de Decadência em Curso. O eurocepticismo é hoje o combustível que alimenta as franjas do sistema. Nesse sentido, as próximas eleições europeias, a realizar em Maio de 2019, serão cruciais enquanto barómetro da força dos grupos populistas de esquerda e de direita que um pouco por todo o lado se multiplicam como coelhinhos selvagens.

Vem isto a propósito da birra, vamos chamar-lhe assim, do Bloco de Esquerda por causa do convite a Marine le Pen, líder da Frente Nacional, para vir partilhar com o mundo as suas opiniões no palco da Web Summit. Catarina Martins acha que a melhor forma de calar ideias que vão contra as que defende é colocar-lhes uma mordaça. Se compreendesse melhor o mundo em que vive, a líder do Bloco de Esquerda não teria dificuldades em entender que o efeito da mordaça é exactamente o contrário. De repente, Portugal e a Web Summit foram notícia no mundo civilizado não porque são espaços em que se discutem livremente as ideias, a tecnologia e os desafios que a mesma coloca às democracias liberais (e não liberais, já agora), mas porque é um território em que a diferença de pensamento é silenciada em função de uma cartilha de ódio que pouco ou nada tem que ver com ideologias.

O tipo de chantagem que o Bloco de Esquerda, devidamente acompanhado pelo PCP, fez sobre os promotores da Web Summit – cuja postura reverencial em relação ao poder político português se revelou patética - é alicerçado no mesmíssimo argumento que a Frente Nacional esgrime em França para defender as suas bandeiras mais visíveis: o da intolerância. E isso tem de dizer alguma coisa sobre a sua natureza