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O Supernannygate e o que ele diz sobre nós (e sim, isso inclui-o a si)

Ao instrumentalizar uma menor com claros problemas comportamentais a um espectáculo lamentável, a dupla-maravilha contribuiu generosamente para que se descesse mais uns degraus no domínio da pornografia moral

Só ontem cheguei ao escândalo do momento. Parece que a SIC decidiu lançar um reality show em que uma suposta psicóloga com tiques nacional-socialistas e uma mãe claramente desesperada para aparecer na televisão à hora das novelas humilharam publicamente uma criança de sete anos sob o pretexto de a “educar”.

Numa passagem intensíssima do episódio emitido no passado domingo, a rapariguinha, por ter desobedecido à mãe, é submetida à tortura do “banquinho da pausa”, que consiste em imobilizá-la e deixá-la sozinha a chorar em histeria durante sete minutos num banco plantado na escadaria que liga os dois andares da habitação. A humilhação só termina no momento em que a criança, ainda de ranhoca pendurada nas narinas, dá um beijinho fofinho na mãe, devidamente acompanhado de um pedido de desculpas. A cena tem feito as delícias das redes sociais, sempre disponíveis para arruinar vidas e reputações, habitualmente sem razão particular para que isso suceda. Mas sucede que neste caso até a têm.

Noutra cena notável, a criança (irritante, há que dizê-lo) tem (mais) uma crise de mau feitio. A mãe, visivelmente perturbada, aproveita o momento para partilhar borbulhas (algumas) e analfabetismo (bastante) com a câmara da SIC: “O que é difícil [para mim] não é ela chorar; é ter ela contra mim.” Ou seja, desiluda-se quem pensa que no centro de “Supernanny” está o princípio utópico de que é possível “educar” uma criança numa casa transformada em estúdio de televisão. É que nada daquilo é acerca daquela menor; é tudo sobre uma mãe ignorante e uma psicóloga deslumbrada. Tudo empacotado, dá-nos um retrato deprimente sobre o estranho mundo em que vivemos. Um mundo criado por todos nós, em que a linha que separa o que é público do que é privado deixou de existir porque já nada, literalmente nada, é privado: os nossos rendimentos, as nossas viagens, os nossos telefonemas em vídeo e em áudio, tudo é passível de bisbilhotice por quem domina os sistemas de informação e vigilância.

Ao instrumentalizar uma menor com claros problemas comportamentais a um espectáculo lamentável, a dupla-maravilha contribuiu generosamente para que se descesse mais uns degraus no domínio da pornografia moral - aquele que nos transporta à devassa dos afectos, que é a mais cruel de todas. No único momento inteligente de todo o episódio, a criança grita, desesperada: “Vocês são estúpidas!” São, não são?