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Monstros, despojos, entes desgraçados: as eleições no PSD

Faltam cinco dias para que os militantes do PSD votem. Resta agora saber se a dupla de candidatos aproveitará as cerca de 120 horas que lhes restam para falar do que realmente importa ou se, como já ameaçou Rui Rio, apostará em descer o nível da campanha ao das inefáveis tragicomédias do arquitecto Saraiva

Disclaimer: esta crónica é sobre o PSD. Dito isto, devo confessar com embaraço que acabo de ler no “Sol” a mais recente pérola do arquitecto José António Saraiva. Desta vez o eterno candidato ao Nobel da literatura aplica o seu talento para a tragédia grega aos “fulanos” que incompreensivelmente optam mudar de sexo, fazendo o que bem querem com o seu corpo. Entre outros mimos, Sofócles, desculpem, Saraiva, apelida-os de “entes desgraçados”, “monstros híbridos” e “despojos humanos”.

Ainda atordoado pela narrativa bela e crua, recordo-me instantaneamente de uma crónica de Bruno Nogueira a propósito de outro texto igualmente edificante que Saraiva escreveu no Sol há uns anos, no caso sobre os alegados trejeitos que caracterizam a tribo gay. Concluía o humorista: dos homens que conhece, Saraiva é o mais parecido com um tijolo. Uma observação obviamente injusta, na medida em que tijolos são os que ainda dão importância ao que escreve o ex-director do Expresso - comigo à cabeça, claro está.

Mas esta crónica é sobre o PSD, que não sendo um monstro híbrido, por vezes parece um despojo partidário, no sentido em que os seus entes apreciam contribuir para o desgraçar perante os eleitores, nomeadamente através da fulanização barata em tempo de campanha eleitoral. Vejamos: só nos últimos dias Rio colocou em causa a seriedade de Santana no negócio do Montepio, que por sua vez aconselhou Rennies a Rio, que por seu lado disse que não precisa deles para nada, aproveitando ainda para sublinhar a tendência de Santana para a trapalhada, que contra-atacou com o “paroquialismo” de Rio, que...

Não me compreendam mal: ver Rio e Santana a lutar na lama por questões menores diverte-me quase tanto como as crónicas de Bruno Nogueira sobre as obsessões pornográficas do arquitecto Saraiva, mas nesta fase talvez fosse mais interessante saber o que pensam os candidatos a Primeiro-Ministro (sim, porque em 2019 um deles irá a eleições gerais) sobre temas mais chatos, como a reforma da segurança social, a reorganização do sector público, o papel do Estado na economia, na saúde ou na educação. Não é aceitável que a tão pouco tempo da votação os militantes do PSD permaneçam razoavelmente alienados em relação à linha política de Rio e Santana.

Sabe-se, porque ele o afirmou num improvável assomo de nostalgia revolucionária, que Rui Rio quer “uma ruptura”, “um novo 25 de Abril civil e reformista”. Desconhece-se o que faria se tivesse de escolher entre diminuir a carga fiscal sobre os contribuintes ou pagar a dívida externa. Sabe-se que Santana Lopes considera o seu adversário absolutamente incoerente (com razão, diga-se, uma vez que é difícil compreender que um homem que em 2004 afirmou publicamente que Santana era sério e competente afirme agora o seu absoluto contrário, reportando-se ao mesmo período histórico), mas não se lhe conhece, por exemplo, uma posição definitiva sobre a recondução de Joana Marques Vidal na liderança da Procuradoria Geral da República, uma decisão estruturante para a credibilidade do sistema judicial português. E o mesmo sucede com Rui Rio.

Faltam cinco dias para que os militantes do PSD votem. Resta agora saber se a dupla de candidatos aproveitará as cerca de 120 horas que lhes restam para falar do que realmente importa ou se, como já ameaçou Rui Rio, apostará em descer o nível da campanha ao das inefáveis tragicomédias do arquitecto Saraiva.