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Crucificar o Urban Beach é um erro, mas dá tantos likes

Marcos Borga

Os social media junkies, perdidos no labirinto da sua delirante trip inquisitória, esqueceram-se de colocar uma questão: em que tipo de sociedade nos tornámos quando, perante uma agressão bárbara em curso, as pessoas que a ela assistem estão mais preocupadas em filmá-la do que em impedi-la?

Nos últimos 44 anos, terei ido três ou quatro vezes ao Urban Beach, mais pelo restaurante japonês que lá funciona – e que, venham de lá as pedras!, recomendo vivamente – do que pelas qualidades certamente indiscutíveis da discoteca, que, à imagem do que sucede com as suas congéneres de todos os quadrantes, credos, raças e nacionalidades, não aprecio especialmente. Problema meu, seguramente, que tenho tímpanos tão sensíveis.

Outra coisa que não aprecio em particular – e esse é outro dos meus numerosos problemas – são autos de fé nas redes sociais, a inquisição dos tempos modernos e o ecossistema escolhido pelos novos polícias dos costumes para disseminar rumores, amplificar mentiras e alimentar perseguições a supostos hereges, numa espécie de bailado ovino violentamente dinamizado por uma doentia obsessão por likes e partilhas de ocasião.

Desde a semana passada que os predadores do Facebook e do Twitter se divertem a atirar pedras à administração do Urban Beach a propósito de uma agressão bárbara de três vândalos – há também quem os designe de “seguranças” – a duas pessoas no exterior do espaço – pessoas que, sublinhe-se, não pisaram a discoteca naquela noite. O Governo, devidamente contagiado pelo folclore das redes sociais, fechou o espaço, tomando a decisão que se impunha para pacificar os indígenas, obviamente sem pensar nem nos danos materiais e reputacionais que a sua opção provocará a uma empresa privada, nem nos empregos dos que lá trabalham e que nada têm a ver com o que se passou.

Agora que passaram uns dias e o rebanho já está de barriga cheia, proponho que falemos um pouco sobre factos.

Facto número um: os vândalos, perdão, os “seguranças”, que espancaram os dois jovens não são empregados da discoteca – são funcionários da empresa de segurança responsável pela vigilância do local. Dizer, ou insinuar, que a administração do Urban Beach dá instruções aos vândalos – ou melhor, aos “seguranças” – para ministrar uns pontapés na cabeça dos meninos que se portem mal não é apenas ridículo – é uma irresponsabilidade apenas explicável por um de três fenómenos: cegueira, ignorância ou má-fé. Ou então pela ardilosa combinação dos três.

Facto número dois: quem conferiu a licença de trabalho aos “seguranças” não foi a administração do Urban Beach – foi a mesmíssima entidade que agora os puniu, e muito bem: o Ministério da Administração Interna. Apesar de não lhes ter atribuído qualquer licença, o Grupo K (que detém o Urban Beach) não só os despediu como rompeu o vínculo com a empresa de segurança.

Facto número três: a violência na noite não é, desculpem-me os profissionais do apedrejamento, um exclusivo dos espaços do grupo K. Trata-se de um fenómeno extensível a muitas outras geografias de Lisboa. Só quem nunca foi ao Cais do Sodré às quatro da manhã pode dizer o contrário. Nos últimos três anos aconteceram lá duas mortes por esfaqueamento e dezenas de actos de brutalidade. Todos nos lembramos das imagens (épicas, há que dizê-lo) de Mustafa Kartal, “o senhor do Kebab”, de faca em riste a defender o seu “palácio” de uma multidão em fúria. E a quase todos os que frequentam a Rua Rosa ou o Bairro Alto já foi oferecida cocaína em plena via pública.

Estes são os factos. Perante as evidências, deixo algumas perguntas:

Onde estava polícia quando todos estes eventos aconteceram? A trabalhar em casa? A dormir na esquadra? Em férias, a assobiar nas Maldivas? Porque foi necessário alguém chamar as autoridades, tarde e a más horas, perante o espancamento selvático de um jovem? Não seria suposto haver agentes a patrulhar um espaço obviamente crítico? E o Governo, os vários governos, onde têm andado? Não são os políticos – e não os empresários da noite – quem tem a responsabilidade de legislar no sentido de garantir a segurança dos cidadãos nas ruas? Porque não se avançou ainda com uma força especial para patrulhar este tipo de espaços como acontece, por exemplo, à porta das escolas com o programa “Escola Segura”?

Por fim, uma última questão que os social media junkies, perdidos no labirinto da sua delirante trip inquisitória, se esqueceram de colocar: em que tipo de sociedade nos tornámos quando, perante uma agressão bárbara em curso, as pessoas que a ela assistem estão mais preocupadas em filmá-la do que em impedi-la?