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Os e-mails do Benfica são mais importantes e perigosos do que a desgraça de Kevin Spacey

Pós-verdades

Fernando Esteves

Marcos Borga

O caso dos e-mails do Benfica é muito importante – e não só por consagrar a tese hegeliana segundo a qual a História se repete pelo menos duas vezes. É-o porque reforça um sinal que a justiça portuguesa vem dando de há pelo menos três anos a esta parte: o de que a impunidade acabou e a corrupção deve ser combatida sem tréguas

Estão a acontecer muitas coisas importantes e perigosas. Em Portugal e no mundo. Sabe-se que Rui Rio e Santana Lopes andam em passeio pelo País, tentando convencer os caciques e caciquinhos do PSD de que são eles a menos má das respostas para recuperar os tachos e tachinhos perdidos pelo partido entre o trauma da saída do governo, o drama do aparente sucesso do governo de Costa e a monumental tragédia ocorrida nas eleições autárquicas.

Não em passeio, mas em aparente fuga, está Carles Puidgemont: a espécie de líder da Catalunha escondeu-se no armário burocrático de Bruxelas para revelar que será candidato às eleições catalãs. É também de armários que se fala do outro lado do Atlântico, onde a série House of Cards acaba de ser cancelada porque Kevin Spacey, o seu protagonista, foi acusado por um conhecido actor, de cujo nome não me recordo, de, há 30 anos, o ter “carregado ao colo como o noivo carrega a noiva” no fim de uma festa realizada em casa do já saudoso Frank Underwood – que agora utilizou dois argumentos infalíveis para se defender publicamente: estar bêbado quando carregou o menino e, surpresa das surpresas, ser gay. Maldito sejas, Kevin.

Sim, o mundo está perigoso. Bárbara Guimarães abalroou nove carros num parque de estacionamento por ter bebido uns copos a mais. E Franco Foda – Franco quê?! – acaba de ser nomeado seleccionador austríaco de futebol. A nomeação de Franco Foda é obviamente um pretexto para falarmos do que neste preciso instante é verdadeiramente relevante para os chefes de família desta nação valente e imortal: o caso dos e-mails do Benfica, que esta semana conheceu um desenvolvimento, com a realização de buscas judiciais no Estádio da Luz, entretanto convertido numa espécie de bordel conspiratório em potência, e nas residências de Luís Filipe Vieira e de Pedro Guerra, o presidente conhecido por já ter roubado um camião e o peso-pesado dos comentadores televisivos do clube encarnado, que curiosamente foi o autor, enquanto jornalista d’O Independente, da notícia sobre o “desvio involuntário” de Luís Filipe Vieira.

A acreditar na juíza de instrução criminal que assinou os mandados de busca, Vieira e Guerra, entretanto convertidos em BFF, terão partilhado, em anos recentes, um part-time que acumularam às relevantes funções que um e outro desempenhavam: a ardilosa montagem de uma “rede de influência” em “conluio com personalidades do mundo do futebol e da arbitragem” no sentido influenciar a nomeação e a classificação dos árbitros. O esquema era simples: os bons alunos – leia-se: os que beneficiavam o grande Benfica – mereceriam prémio; as ovelhas tresmalhadas eram postas de castigo fora da sala de aula. Uma espécie de Apito Dourado 4D, uma vez que os meios utilizados são diferentes: há 15 anos falava-se ao telefone de opulentas ofertas aos árbitros de peças de fruta fresca e cafés com leite devidamente escaldados; agora trocam-se e-mails frios sobre a oferta de benesses como bilhetes para jogos e viagens.

O caso dos e-mails do Benfica é muito importante – e não só por consagrar a tese hegeliana segundo a qual a História se repete pelo menos duas vezes. É-o porque reforça um sinal que a justiça portuguesa vem dando de há pelo menos três anos a esta parte: o de que a impunidade acabou e a corrupção deve ser combatida sem tréguas. Na política, na alta finança, nas empresas – e no desporto. O escrutínio de figuras como Duarte Lima, José Sócrates, Ricardo Salgado, Oliveira e Costa ou Henrique Granadeiro tem sido fundamental para reconciliar os portugueses com o aparelho judicial. Hoje sabemos que não existe uma justiça para ricos e outra para pobres, uma para portistas, outra para benfiquistas ou sportinguistas. E isso é condição fundamental para o reforço da democracia.

Fernando Esteves

Fernando Esteves

Jornalista

Nasci em Lisboa, tenho 44 anos e um filho. Jornalista há 22 anos, trabalhei no Euronotícias, n’O Independente e na revista Sábado, onde fui editor de Política durante 12 anos. Para além disso, dei aulas de jornalismo em várias universidades (até me cansar), apresentei o mais monumental fiasco da história da televisão portuguesa (não vou revelar qual) e escrevi dois livros: O Todo-Poderoso, uma biografia de Jorge Coelho, e “Cercado”, sobre os dias algo turbulentos que José Sócrates experimenta desde que decidiu deixar de viver em Paris. E é isto. Poucochinho, eu sei.