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Ser mulher é tramado

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Mas quem se trama são eles

Estou ao computador a escrever esta crónica com a cara verde. Antes disso, tive-a preta. A seguir, vai passar a branca. Vai ser esfregada inúmeras vezes com um pano de musselina com água morna, logo de seguida levando um choque térmico de água gelada, para que os poros percebam bem quem é que manda.

Enquanto isso, ele vê TV.

Fiz uma pausa para tirar isto da cara e aproveitei e pus óleo hidratante nas cutículas das unhas. Depois percebi que deixei o teclado gorduroso, tentei limpar, e optei então por passar (outro) óleo hidratante nas pontas do cabelo, para este ficar macio, sedoso e brilhante.

Continuo na crónica. Oiço-o a virar-se para outro lado, sempre de comando na mão, e a mudar das notícias para um jogo de andebol.

Entretanto pintei as unhas e estou a escrever a crónica com a cabeça dos dedos, abertos, tipo sapo, para não borrar tudo. Duas crianças assomam à porta do escritório e imediatamente fogem, porque a cara agora está coberta por uma espécie de folha de papel com buracos para olhos, nariz e boca, os cabelos desgrenhados, e dedos esquisitos batem furiosamente num teclado que, outrora branco, agora está encardido com verniz, óleo, e a ocasional pinga de máscara hidratante.

Ele vai limpar um rabo de filho com o comando preso entre os dentes e volta para o sofá.

Pausa para tirar tudo da cara e do cabelo, tomar banho e passar creme em todo o corpo, fintando os gatos que acham que quero brincar e me arranham as pernas, hidratadas, mas agora marcadas. Coitadas das unhas das mãos, com toda esta algazarra já não estão propriamente perfeitas.

Volto à crónica: estou a pensar escrever algo que vinque as diferenças entre a elevada manutenção do corpo feminino e a ausência para o masculino, mas estou cansada com todo o processo (e nem falei da parte da depilação). Eles só têm de tomar banho e fazer a barba (o meu nem isso), não é justo. E o pior é que não notam todo o cuidado, seguramente só notariam a ausência dele.

Altura para secar o cabelo. Quero lá saber, que fique acachapado à cabeça, já estou por tudo, só me apetece esparramar-me no sofá também. Vou ter com ele.

“Este tempo todo para escrever uma crónica?”, diz-me. E é nesse momento que percebo que não escrevi texto nenhum e – na minha mente – me atiro a ele, tresloucada, esquecendo as unhas, a cútis e o cabelo. Mas, não podendo desperdiçar tanto trabalho árduo, sorrio apenas e penso “um destes dias deixo de tratar do buço, a ver se gostas!”