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Alugam-se filhos

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Dois, 5 e 10 anos, sexo masculino, lavadinhos e penteados, entregam-se em mãos com suficientes mudas de roupa. Motivo: privação de sono e previsível aproximação de crise de nervos. Aceita-se permuta por eletrodomésticos com menos de 3 anos

Eu poderia escrever um anúncio assim. E garantidamente congeminaria meia dúzia de argumentos infalíveis para arranjar quem mos levasse durante, vá, uma semaninha. Não pondero o regime de ALD, que já me afeiçoei a eles, mas algo como um aluguer de mais ou menos curta duração daqueles que, quando começasse a sentir aquele vazio no peito, já eles estariam de volta prontos a fazerem-me considerar a hipótese de os recambiar de novo sem remorsos nem contemplações.

Começaria por recomendá-los a casais ainda sem filhos numa espécie de curso pré-paternidade com uma vincada componente prática. Estaria seguramente apto a procriar quem chegasse ao final com aproveitamento nas cadeiras de “Introdução às gincanas entre Legos com luzes apagadas e de pés descalços”, ou “Desentalanço de dentro de sanitas de bonecos de dimensão que implique sempre um braço até ao cotovelo”. Eu, por exemplo, já percorri um corredor inteiro em cima de um carrinho a fazer de mono-patim e sobrevivi sem mazelas de maior, a não ser no ego (e na testa, pronto). Mudar fraldas? Dar banho?! Brincadeira de meninos, quando comparada com festas de aniversário em casa com 30 crianças com mais açúcar a correr-lhes nas veias do que sangue. Frequente-se, pois, um bootcamp com crianças alugadas, treinadas especificamente para o efeito, que é como quem diz, as minhas.

Do que aqui se trata, no fundo, é de uma preparação para a vida real. Caso este modelo de negócio não resulte, creio que também poderei enveredar por feiras temáticas, com uma banca direcionada para avós em potencial, mas que “ai hoje em dia esta malta nova quer esperar por todas as condições, no nosso tempo tudo se criava, mas eles agora têm telemóveis logo aos 4 anos e nós cá entretínhamo-nos na rua.” Chegai-vos cá, fregueses, que tenho aqui dois belíssimos exemplares de netos, com as vacinas em dia, desparasitados, especialistas no metier. São criaturas amorosas (ainda no outro dia comentaram com os avós que tinham muita pena que eles estivessem quase a ir para o céu), é, portanto, enfiá-los num carrinho de supermercado e contemplar como azucrinam, pedem tudo, desde víveres a material escolar e, mal vocês virem costas, escondem gomas entre as latas de atum e a cola da dentadura. Ide, levai-os e devolvei-os quando lhes tiverdes feito todas as vontadinhas, inclusivamente permitido que vejam televisão até os olhos lhes lacrimejarem. E se for de pé em cima do vosso sofá branco, tanto melhor, avô que é avô tudo permite (a não ser que tenham sido os filhos a fazê-lo há 20 anos, aí tal comportamento seguramente teria proporcionado ímpares lambadonas).

Sendo assim, penso ter aqui material, no mínimo, para workshop. O Instituto de Formação Profissional que se cuide, porque se eu apresento estas ideias às entidades competentes e me apanho com fundos comunitários, não vai haver cursos que lá se ministrem que me façam sombra.