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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

A história de um herói açoriano

Paralelo 38

João Gago da Câmara

D.R.

O Moçambique de um jovem ex-comando açoriano que supôs que a guerra seria bem melhor do que a repulsiva juventude

“De todas as mortes que tive de amigos no ultramar, esta foi a que mais me chocou, porque ele morreu ali irremediavelmente ao meu lado antes que chegassem os helicópteros das evacuações.”

A sorte protege os audazes. Ele ouviu esta frase centenas de vezes, em Lamego e depois em Moçambique, para onde foi integrar os quadros da quinta companhia de comandos africanos na guerra em África. Entre minas, tiros e granadas, gritos de guerra que ziguezagueavam entre os troncos da duvidosa mata, Manuel António Rodrigues Mota clamou por misericórdia às árvores que escondiam brancos e negros e chorou entre o capim e, para ele, regou-o de revolta e de saudade, de insegurança e de temor verdadeiro com causas bem reais.

O início da sua idade adulta chamou-se África, guerra, violência, morte, desolação, arrependimento, saudade. Mas porque ele o quis.

Desde os seus jovens sete anos de idade que o trabalho familiar era árduo e cabia a todos, até à sua infantil pequenez. E a disciplina dava mãos à severidade. Nessa época, era assim às vezes o formato da educação familiar. Ir, nas supostas férias, férias apenas da escola, para a piscina pública de São Pedo, em Ponta Delgada, e chegar a casa pouco depois do meio-dia e meia, hora estipulada pela família para almoçar, dava direito a castigo, neste caso não voltar a pôr os pés na piscina por toda uma semana ou mais, essa que era a piscina dos namoriscos e das paixonetas de que Manuel e todos nós tanto gostávamos.

Todo o dia era de trabalho duro na tradicional “Loja das Chitas”, o negócio da família, e o estudo era remetido para o lado da noite. Foi o castigo, mais um, por o jovem haver chumbado o segundo ano liceal. O período de descanso anual era a trabalhar, quase ininterruptamente, dezasseis horas diárias, das oito e meia da manhã à meia-noite e meia. E perante tanta proibição e tantos castigos, África aparentou ser a melhor opção de vida. Manuel António decidiu dar o corpo às balas como voluntário no exército – severidade pela severidade - e entregou-se à tropa de elite dos combatentes maiores das forças armadas portuguesas. Passou a gritar, com os companheiros de armas, “Mama Sumae” – aqui estamos prontos para o sacrifício – a frase que se eternizou nos comandos, e o sacrifício foi ilimitado.

D.R.

Entre as incontáveis vicissitudes bélicas, que todo o combatente de elite tem, Manuel recorda-nos, sobre todas, a ocorrida num fatídico 7 de fevereiro de 1974, em que um amigo, oriundo de Castelo Branco, o Alferes Nabais, por impiedade do destino, pois era a sua última operação em Moçambique, foi mortalmente atingido por estilhaços de um “rocket”, quando se encontravam próximos de uma base inimiga, acabando por lhe morrer nos braços. Há dias incomensuravelmente desafortunados que a crueldade do destino apronta! “De todas as mortes que tive de amigos no ultramar, esta foi a que mais me chocou, porque ele morreu ali irremediavelmente ao meu lado antes que chegassem os helicópteros das evacuações.” – rememorou o ex-combatente.

A teoria que era propagada na altura – afirma o ex-comando - era a de que o então Chefe de Estado, Marcelo Caetano, pretendia implementar, de modo progressivo, a autodeterminação de todas as ex-colónias ultramarinas, mantendo-as ligadas a Portugal até que obtivessem as condições elementares para se governarem sozinhas. Assim não aconteceu.

A tropa, bem ou mal, fê-lo um homem, veio para a vida profissional e, sabe-se lá se terá sido o olho do Universo sobre aquele jovem cheio de um passado sofrido – a sorte protege os audazes - a vida sorriu-lhe guindando-o no mundo dos negócios ao mais alto patamar, onde hoje se encontra, sendo, como é, um dos mais bem sucedidos comerciantes dos Açores.

Comprou um iate, a que chamou “Oásis”, que bem merece após tão espinhosa caminhada e com que, de quando em vez, sulca os oceanos do planeta. Empreendeu uma viagem à volta do mundo, também ela não isenta de perigos, mas - aí está – até no mar, a sorte protege os audazes. Em trinta e seis mil milhas navegadas pelas sete partidas da Terra, deu a volta ao mundo durante 20 meses, cruzou tempestades contra ventos ciclónicos do outro lado do globo, entre as ilhas Vanuatu e a Austrália. E, já depois da volta ao mundo, no Canal da Mancha e no Golfo da Biscaia, enfrentou gigantes de água que se elevaram a intimidantes dez metros de altura, e, a atrapalhar-lhe a navegação, o enrolador da genoa (vela da proa) e o piloto automático quiseram avariar.

Contou-nos o skipper que, onde acaba o Mar Arábico e começa o Mar vermelho, o “Oásis” teve duas traineiras de rapina somalis em sua perseguição, tentando a abordagem, o roubo do iate, rapto da tripulação e posterior extorsão ao país e aos familiares. Manuel Mota e a sua equipagem, com velas enfunadas e o motor a fundo, conseguiram escapar e sair ilesos. Hoje, Manuel Mota conta com mais de sessenta mil milhas navegadas que incluem viagens de 19 dias sem avistar terra.

Com 66 anos, “pai de filhos e avô de netos”, Manuel apaziguou-se com a vida e tira partido do que ela generosamente presenteia. No sono muitas vezes ainda desperta ao som da metralha e dos morteiros, dos impropérios atemorizadores do inimigo e dos gritos de dor e de morte dos colegas, comandos, companheiros da desventura, mas reconhece haver todos as manhãs um nascer-do-sol diferente para melhor, como que uma bênção todos os dias chegada dos céus que o felicitam por ainda fazer parte do mundo dos vivos.

A intenção deste texto não foi mais do que tentar dar a mão a um ser humano que por pouco não entregou a vida à nação enrolada numa bandeira. Manuel António – é essa a intenção - representa aqui outros muitos milhares de homens que desceram ao inferno e voltaram, porque, enquanto jovens, foram empurrados para uma guerra fratricida pela mão sanguinária de um país para serem depois chamados de assassinos.

Ao apito do navio, ainda criança, lembro-me, tão bem como se fosse hoje, de ir a correr para o cais de Ponta Delgada ver sair o “Carvalho Araújo” ou o “Funchal” para poder dizer adeus aos heróis, esse adeus até mais, ou até nunca mais. E era ouvir os choros e gritos das suas mães e sentir-lhes a aflição, porque também era filho, vindo dos mais profundos territórios de si mesmas onde os amaram nove meses e uma vida toda. É necessário ajudar a exorcizar os demónios que ainda hoje atormentam essa gente que obrigatoriamente vestiu farda, que matou e viu morrer, sem que nunca alguém lhes explicasse porquê.

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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.