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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

Ao longe a liberdade

Paralelo 38

João Gago da Câmara

D.R.

As nossas mães choravam. Estávamos longe e sem dinheiro. Tivemos fome e pedimos para nos deixarem ficar no Seminário de Angra do Heroísmo onde nos serviram arroz com ovos - abençoada refeição – e lá ficámos a pernoitar

Hoje sou pai de filhos e avô de netos, como se diz comummente. Tenho duas filhas e três netos. O meu primo, Luís, tem três filhos e nenhum neto. Ainda. Ele anda pelos lados do saber, eu a palmilhar os territórios da informação. Saber queríamos nós, há dezenas de anos, se a miúda seria gira (hoje chamam-nas "gajas", termo impróprio para seres tão delicados. Uma vulgaridade!), se a loura era mais para mim e a morena mais para ele. Crianças, … quase adolescentes já com o sentido do sexo oposto para complementaridade da nossa já desmedida felicidade. O local de pesquisa era no aeroporto. Vamos, João, até à aerogare para vermos se vem alguma miúda gira para mim e outra para ti? As caras na cidade e na ilha eram sempre as mesmas. Passeávamos com elas, dançávamos com elas, mas a ilusão de que o que é novo é melhor bailava nas nossas cabeças novas e tontas. Fomos.

Esperámos a chegada do avião, viesse ele de onde fosse.

– Luís, tens dinheiro? Vamos tomar uma laranjada?

– Ó pá, tenho cá dinheiro! A minha mãe dá-me cá nada! E o meu pai, nem me atrevo a pedir-lhe!

Eu também não tinha. Nem um tostão.

Aterra um avião pequeno da Força Aérea Portuguesa. Não trazia miúdas. Trazia tropa deslocada. E trazia também, sempre, o velho Sargento Nicolau, da FAP nos Açores, uma figura incontornável na Base Aérea 4 estacionada nas Lajes, um militarão dos quatro costados.

Já era eu então um perdido pela aviação. Aquele elevar da máquina no ar, o roncar dos motores que soltavam lágrimas às mães que viam os filhos partir para a tropa, o saber-se que ia gente ali dentro a subir a atmosfera, esse atrevimento de afrontar o mundo das aves e a ambição de um dia poder ser piloto e estar num cockpit a comandar uma dessas aeronaves, eram um fascínio e impulsionaram-me a perguntar ao meu primo se queria pedir boleia ao sargento Nicolau.

– E os nossos pais, pá, não lhes dizemos nada? – questionou.

– Não, pá. Não lhes dizemos nada. Vamos e pronto - respondi-lhe.

E tal como tínhamos combinado, dirigimo-nos ao sargento a perguntar-lhe se nos podia levar para a Terceira.

– Têm a certeza que os vossos pais vos deixam embarcar? - perguntou-nos o militar desconfiado.

– Claro que sim. Não há problema. - mentimos.

– Então venham que o avião vai sair e arranjo-vos dois lugares. E lá fomos, dois rapazolas, a voar de graça os céus açorianos rumo à pequena América da ilha.

– Tanta “lenha” que iremos apanhar quando voltarmos para São Miguel! - observou o Luís.

– Não te preocupes, Luís, goza agora a viagem e o resto depois se verá - respondi-lhe.

Estávamos na fase final da criancice e a entrar na adolescência. Tínhamos a escola no dia seguinte, a que faltámos. Deixámos os nossos pais em alvoroço. As nossas mães choravam. Estávamos longe e sem dinheiro. Tivemos fome e pedimos para nos deixarem ficar no Seminário de Angra do Heroísmo onde nos serviram arroz com ovos - abençoada refeição - e lá ficámos a pernoitar.

O telefonema, por ordem dos padres, foi efetuado.

– Pai, estou na Terceira com o Luís. Viemos à boleia no avião militar.

E a resposta austera que veio do lado de lá foi simplesmente:

– Conversamos quando chegares!

Ui, que peso de resposta! Que grave a voz do pai!

Chegou o cheque telegráfico, que fomos levantar aos correios, e a passagem paga na SATA que nos levou de regresso a São Miguel.

Ao invés da “lenha” que se se fazia anunciar, achámo-nos envolvidos no calor dos braços das nossas mães, que, dando pela nossa falta, já previam o pior.

Não houve miúdas de cabelos loiros ou morenos, giras, altas, baixas, gordas ou magras, nem sequer houve miúdas. Houve céu azul a perder de vista, algodões de nuvens açorianas, oceano etéreo, fardas da FAP quanto baste, novos horizontes a ocidente, aquele cheiro característico a alcatrão que tem a pista de aviação nas Lajes e o sonho, esse sonho de, na ousadia e na coragem de apenas rapazes, acharmos concretizada essa tão infantil conquista da liberdade.

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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.