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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

Katia Guerreiro, a africana açoriana

Paralelo 38

João Gago da Câmara

Ana Geraldo

Katia Guerreiro, orgulho açoriano, nacional, com reconhecimento internacional, em quem admiravelmente choram os nossos fados

Veio fazer um ano nos Açores. Desembarcou na ilha verde, vinda de África, ao colo de sua mãe, com apenas onze meses, daí chamar-se Katia, com K e sem acento no a. A “descolonização exemplar” de Angola ofertou-nos esta bebé que teve dois nascimentos, o primeiro, na longínqua África do Sul, o segundo, nos Açores.

Embora este acidente relativo ao seu nascimento, podemos seguramente dizer que Katia Guerreiro cresceu no Atlântico Norte, entre a Europa e a América, na ilha de S. Miguel, portanto é nossa. É, segundo ela própria, açoriana de alma e coração.

A brilhante Katia que conhecemos nem sempre teve uma infância fácil nos Açores. Poucos saberão que foi vítima de bullying na escola, precisamente, por não ser açoriana de nascimento e vir de África. A saída necessária de Angola obrigou sua mãe, que vem de uma terceira geração de angolanos, a fugir grávida para a África do Sul, onde deu à luz Katia, a menina que traria, onze meses mais tarde, para os Açores.

Katia, como tantos outros, trazia na bagagem essa palavra discriminatória e imbecil - ela era uma “retornada”. Que sentirão os ex-colegas que a hostilizavam, hoje adultos, e certamente contra o bullying praticado nas escolas, em alguns casos sobre os seus filhos, quando ouvem e veem Katia cantar maravilhosamente para as plateias do mundo? As voltas que a vida dá! Talvez se tenham esquecido do mal que lhe fizeram. Talvez se lembrem e sintam remorso. Talvez sintam ferruncho, pois o belo canto da retornada Katia, bela por fora e por dentro, a diva do fado Katia Guerreiro, é orgulho dos açorianos e de outros tantos portugueses, no país e fora dele.

Katia é uma amante do fado tradicional, por isso tem uma parte significativa do velho fado no seu repertório, com poemas escolhidos por ela. Tem também composições novas. Perguntámos-lhe o que achava da nova criação a que chamam de fado-canção e que vingou. Parafraseando o Maestro António Vitorino de Almeida, respondeu que “ tudo pode transformar-se em fado, mas o fado não se pode transformar em tudo”. E adiantou: “o fado é catarse, é uma expressão máxima de emoções. É no fado que ponho e encontro as minhas verdades mais puras e ponho tudo o que trago em mim. Fecho os olhos e vivo momentos da minha vida que partilho a cantar em forma de poesia, em harmonia com a intensidade dos sons que o fado tem.” E a fadista explica em a “Voz do vento”, quão importante é o fado tradicional.

Questionámo-la sobre Mariza e acerca da frase polémica que proferiu no “La Opinion”, da Corunha, referindo-se a Amália e a ela própria, afirmando que “a morte da grande diva do fado deixou um espaço aberto para que pudesse aparecer alguém, e apareci eu”. “Nem a Mariza, nem ninguém” - respondeu Katia - “será a reencarnação de Amália”. E aproveitou para relevar nomes também importantes do fado em Portugal, como o são Camané, Helder Moutinho, Ricardo Ribeiro, Raquel Tavares, Ana Moura, Sara Correia e Teresinha Landeiro.

Tudo começou, diz a fadista açoriana, “numa noite numa casa de fados em que fui ouvida, sem eu querer, pelo João Veiga, meu músico até hoje, e que nunca mais me largou até me fazer cantar em público. Depois, foi o espetáculo de homenagem a Amália, no 1.º aniversário sobre a sua morte, onde me apresentei com dois fados que me catapultaram para o reconhecimento público. Três meses depois, gravava o meu primeiro álbum e comecei a fazer concertos pelo mundo fora.” E já foram muitos e marcantes. A fadista já cantou na Philarmonica de Berlim, nas óperas de Rennes, de Lyon e de Vichy, no Bozart em Bruxelas, no Olympia de Paris, no Teatro Romano de Mérida, e em tantos outros pelo mundo fora, sem referirmos os espetáculos em Portugal. Entre todos esses momentos musicais, Katia Guerreiro acarinha singularmente, pudera não, um fado que Paulo de Carvalho lhe escreveu, letra e música, e a que chamou “9 amores”, evocando as nove ilhas dos Açores: https://amusicaportuguesa.blogs.sapo.pt/katia-guerreiro-9-amores-1777554 .

Katia Guerreiro vem todos os anos aos Açores. A fadista não sabe viver sem voltar pois é nas suas palavras o regresso “ao único sítio no mundo onde as minhas energias se renovam por inteiro”. Confessa que não teve outro chão a que chamar seu. “Foi o sítio onde dei conta de mim, onde me formei para a vida, onde deixei memórias de uma infância feliz, rodeada de amigos extraordinários que guardo e alimento até hoje. O orgulho de ser dos Açores, de ser privilegiada por fazer parte de um clã que se protege e acarinha, acho que é boa prova de que não podia ser de outro lugar. Foi ali que nasci pela segunda vez, e onde começou efetivamente a minha vida.” E acrescenta que a ilha é o seu refúgio: “Em momentos de cansaço extremo ou de necessidade de me recentrar, é à ilha que vou. Regresso aos meus cantos, visito as minhas pessoas, recupero os sabores da terra e volto nova à minha vida. Ser açoriano é tanta coisa que tem a ver com tudo isto e mais. Há uma forma de viver que vem da terra, dessa energia que a terra nos transmite, uma dolência e transtorno que vem do mar, capacidade de aceitação que pode vir da inconstância atmosférica, mas tem-se sempre esperança porque o sol pode chegar a qualquer momento.”

A açoriana fadista do mundo tem bem presente que emergem dos Açores “almas imensas, grandes pensadores, filósofos, escritores, poetas, músicos como Antero de Quental, Vitorino Nemésio, Natália Correia, José Enes, João de Melo, Zeca Medeiros, ... Nunca me surpreendeu que assim seja. O azul profundo do Atlântico tanto oprime como nos obriga a viajar, primeiro na imaginação, depois na criatividade, ainda na interioridade e no sentido da vida e das coisas. Com estes ingredientes apetece explorar o mundo e conhecê-lo na sua imensidão. Quando chegamos ao mundo há uma emergência criativa e de partilha de ideias, pensamentos, reflexões e emoções que se podem expressar em muitas formas.”

Katia Guerreiro não acha que se tenha deslumbrado muito enquanto viveu na ilha, pois lidou muito naturalmente com tudo o que a rodeava. “O deslumbramento chegou com a saudade, com a falta de tudo o que fazia parte de mim. Hoje não sei cozinhar sem ter pimenta da terra por perto, por exemplo.”

E a saudade da fadista fá-la recordar-se de lugares emblemáticos açorianos, como a Poça da Beija que “era uma mini gruta onde cabiam poucas pessoas, hoje um lugar bonito e arranjado, cheio de turistas que se apaixonam por aquelas águas férreas”

E a viagem continuou de mão dada com as recordações da fadista mais açoriana do que de outra qualquer longitude: “A minha praia foi a do Pópulo, a grande e a pequena, conforme me apetecesse, sobretudo, nas férias grandes em que fazia longas caminhadas desde a minha casa até à praia. Eram cerca de 5 km a pé todos os dias até lá chegar, mas percorria todo o trajeto com uma querida amiga e íamos sempre em longas conversas. O regresso era igual. Não podia ter férias mais saudáveis. Fiz bastante desporto e muito variado. Primeiro, andei no ballet, mas cansava-me muito, pois queria mais atividade. Andei no basket, mas não gostava de ser empurrada e agarrada. Até que, no 10º ano, entrei na área de desporto e aí praticava todos os dias andebol, futebol, volley, atletismo e natação.”

Na cidade de Ponta Delgada, Katia frequentava muito o café Central, na Matriz. “Os meus amigos eram os amigos de escola, os do Rancho Folclórico de Santa Cecília da Fajã de Cima e os filhos dos amigos dos meus pais. Era só com os do rancho folclórico que tinha serões com muita música e cantava com eles.” E diz-nos que nunca se aventurou a cantar sozinha, porque – pasme-se -não reconhecia nenhuma qualidade na sua voz, nem alimentava qualquer ambição artística. As voltas que a vida dá!

A fadista viajou para Lisboa aos 18 anos de idade, onde ingressou no curso de Medicina, formando-se seis anos depois de estudo puro e duro. Exerceu a profissão primeiro em Évora, no internato geral, fazendo urgências. Regressou a Lisboa onde não chegou a fazer a especialidade de oftalmologia, pois nasceu-lhe o primeiro filho, uma menina.

Katia, a médica, sentia-se desconfortável nesse meio de grande sofrimento humano. Confessou-nos que sempre se comoveu com as situações difíceis, sobretudo tratando-se de crianças ou de idosos. “As situações de abandono sempre me levaram a um cuidado redobrado. Mas houve o caso de um imigrante de leste que sabia que ia morrer e pediu-me ajuda para ir morrer no seu país. Assim fiz. Pedi ajuda às autoridades e embaixadas e cumpri.”

Enquanto vos escrevo aqui destas ilhas idílicas, à beira-mar norte dos poços das Capelas, a quase 1 500 quilómetros da metropolitana Lisboa, sei que há um coração infalivelmente açoriano que, na grande cidade, no mundo, onde quer que esteja, canta divinalmente o fado com o cantar singular que tanto nos deleita. É um gosto saber que existes, Katia.

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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.