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Ilha açoriana das Flores, onde começa e acaba a Europa

Paralelo 38

João Gago da Câmara

Pedro Soares de Albergaria

Na aurora da Fajã Grande, o ponto mais ocidental da ilha, se estiver mesmo atento, poderá ouvir os galos a cantar na América

Decorria o ano de 1452. Do cesto da gávea, os olhos cansados do gajeiro repousaram o olhar quando finalmente avistou solidez a emergir do extenso líquido azul e gritou a plenos pulmões: terra à vista.

Juntos, na ponte de comando, os Teive, o filho João e seu pai Diogo, apontavam os óculos ao horizonte e, por entre o alto velame da caravela quinhentista, avistavam verde quebrando o azul do mar - desenhava-se no horizonte uma pequena ilha que se fazia acompanhar de outra ainda mais pequena, e tão próximas estavam uma da outra quanto uma mãe e sua filha que se agarram de mãos dadas. Ambos os marinheiros, sulcando o paralelo 39 em viagem atlântica de exploração desde a Terra Nova, no Canadá, recebiam das mãos do destino essa novidade que ofertariam a Portugal e ao mundo, a bela ilha das Flores, a mais ocidental do arquipélago dos Açores, onde, no ilhéu do Monchique, começa e acaba a Europa.

Imagine um grande jardim dotado de lagoas e de ribeiras de água cristalina e vastos mantos de verde, que, por sua vez, espalham hortências de intenso azul até ao mar; e rochas gigantescas que a erosão esculpiu fazendo da pedra bordões que descem a pique do alto da ilha até ao negrume basáltico entre marés.

Imagine-se em cima da Europa, quando na verdade está em cima da América – a ilha açoriana das Flores, dada a sua distância, assenta na placa Norte-Americana, daí dizer-se, jocosamente, que da Fajã Grande, aldeia próxima do ocidental ilhéu do Monchique, se consegue ouvir os galos a cantar na América.

Sentindo a ocidente o continente americano, Pedro da Silveira, florentino, um dos nossos maiores da poesia, deixou-nos o poema a “Ilha”, incorporado na obra A ilha e o mundo, que retrata o isolamento ilhéu, a alma migrante açoriana e esse querer deixar para trás a desdita atlântica e partir para terras americanas de fartura:

“Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa pairando.
Mar. E um barco na distância:
Olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,
Califórnias perdidas de abundância.”

Mas a ilha íman puxa, forte, e eles voltam, voltam sempre, uns de férias, outros em definitivo … e outros há que nem chegam a partir.

Imagine-se a caminhar entre ravinas e falésias abruptas e a avistar tão perto a pequenina ilha do Corvo, a mais pequena ilha dos Açores, e subir ao Morro Alto, a 914 metros de altitude, olhar em seu redor e, de tanta beleza parada, ver como que uma pequena Suíça atlântica a seus pés, convidando-o a ser parte integrante desse inolvidável encanto.

Imagine-se a ouvir aqui e acolá a música calma das águas num correr teimoso sobre os fundos empedrados das grotas e desaguando em lagoas espelhadas ou no mar e, como que em orquestração, os trinados criativos e agudos da passarada que nos acompanha a par e passo e que povoa o endémico arvoredo da ilha.

As Flores, com cerca de 3800 habitantes, a par da Graciosa e do Corvo, é, a partir de maio de 2009, uma ilha incluída na Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, distinção que se justifica pela sua floresta reunir características únicas de floresta laurissilva da Macaronésia, povoada, que está, entre outras espécies arbóreas, por loureiros e lauráceas, que se dão no seu clima húmido de características subtropicais.

A ilha mais ocidental da Europa foi batizada de Flores dada a abundância de cubres a cobrirem grande parte da sua costa, uma flor amarelada que se julga trazida por aves migratórias vindas da América do Norte, mais precisamente da Flórida.

O povoamento desta ilha teve forte expressão quando liderado pelo nobre flamengo Willem van der Haegen, que também protagonizou o povoamento das ilhas do Faial e da Terceira. O Capitão do Donatário Haegen, após ter vivido na Terceira e no Faial, foi viver para esta ilha, junto à foz da Ribeira de Santa Cruz, hoje conhecida por Ribeira dos Barqueiros, tendo promovido ali o cultivo do pastel que depois estendeu a toda a ilha. O nobre flamengo cederia à força do isolamento e partiria dez anos depois.

As Flores e o Corvo ficam longe de todas as outras ilhas, separando-as do restante arquipélago e do mundo como é óbvio o mar, que para Roberto de Mesquita, outro grande poeta florentino, é “mar infindo”, por vezes “sereno lago transparente”, “ mar entorpecido (…) um canto monótono que embala», outras “ um mar de tormenta, encapelado e verde” que “ Se vem despedaçar na rocha alcantilada…»”.

O grupo ocidental do arquipélago terá sido, por se encontrar assim isolado das restantes ilhas, alvo dos mais duros ataques de piratas, oriundos sobretudo da Inglaterra mas também da restante Europa, combatendo sozinho esse flagelo que tanto atingiu os Açores. Merece, por isso, a nossa vénia e o nosso respeito. Contam as lendas que piratas europeus se sentiam fortemente atraídos por uma belíssima décima ilha que formava com as restantes ilhas deste grupo uma espécie de arquipélago à parte. Desta ilha resta apenas o ilhéu de Monchique, nome que se julga ter origem na designação “mui tcenca”, isto é, “muito próxima”, denominação da décima ilha, por ficar mais perto das Flores do que do Corvo. Adiantavam os corsários ter sido uma ilha muito bonita e muito útil para os orientar nas navegações.

Para quem queira desfrutar dos benefícios da total insularidade, basta rumar às Flores e escolher viver uns dias na pacífica Aldeia da Cuada, onde, se nos esquecemos da porta de casa aberta, nada se passará. Talvez apenas tenhamos a visita de alguns dos animais da ilha, como nos aconteceu com um cavalo que informalmente nos entrou na cozinha. Estar nas Flores é poder percorrer o sossego dos matos com os coelhos bravos a olharem-nos parados como se mansos fossem; é olharmos o Ilhéu do Monchique, na verdade o ponto mais a oeste da Europa e sabermos que para além-mar só há Américas de sonhos e saudades ou, quem sabe, a ilha “muito próxima” submersa nas águas límpidas do ilhéu; é acharmo-nos a bordo de uma lancha rápida rumando à vizinha ilha do Corvo e sermos escoltados por baleias e golfinhos, para regressarmos horas depois à ilha dos velhos baleeiros do ocidente; é ganharmos paz no cheiro a mar e a mato que geram perfumes que se misturam no ar e que só a singularidade da ilha oferece.

Atreva-se e conheça esta ilha, a mais ocidental da Europa e – lembre-se - na aurora da Fajã Grande, frente a Monchique, o ponto mais ocidental da Europa, se estiver mesmo atento, poderá ouvir os galos a cantar na América.

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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.