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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

Faial, a ilha azul

Paralelo 38

João Gago da Câmara

Saborear um gin fresco no Peter’s, tido como o melhor gin do mundo, enquanto se desfruta da maresia que nos chega do canal, junto à floresta de mastros de iates que hasteiam bandeiras de múltiplas nacionalidades, e deixarmo-nos viajar nos desenhos que decoram as paredes do ancoradouro a transbordar engenho e arte de marinheiros em saudação é percebermos que a insularidade também pode ser universal, é conseguirmos sentir no peito essa intensidade que é ser-se ilhéu para o mundo, é surfarmos a onda da atlanticidade e, conscientemente, ousadamente, adotarmos a ilha para sempre

Acordei, fui à janela. Em frente, na linha de água que ali é horizonte, erguia-se majestosa outra ilha que parecia querer juntar-se à ilha onde me encontrava. Entre mim e o mar do estreito canal que separa as duas ilhas, corria apenas uma avenida, redonda, enroscada no comprimento de uma larga baía. E era quase ali, depois do estreito mar, tão perto, o Pico, vertical, azulado àquela hora fresca da manhã. Fica a escassos oito quilómetros, o que é muito pouco nestas latitudes húmidas para separar a montanha de descomunal corpulência que, pelo efeito de lente, se aproxima fascinantemente do Faial.

Após uma travessia calma do canal de Nemésio, com gaivotas a sobrevoarem incessantemente o navio numa gritaria aérea estridente como a dizer-nos bem-vindos ao paraíso, usufruía da bonita ilha em forma de pentágono irregular, com apenas vinte e um quilómetros de comprimento e catorze de largura, batizada pelos descobridores de Faial, por ali terem encontrado grande quantidade de faia-da-ilha, árvores que podem atingir uma altura de oito metros e de onde se extrai boa madeira.

Estava na ilha azul, designação atribuída, há um século atrás, por Raúl Brandão em As ilhas desconhecidas, por esta ilha apresentar, por todo o lado, hortênsias azuis, que a emolduram mais do que a qualquer outra ilha açoriana.

Estava na ilha lua, sendo esta uma designação da minha autoria, dada a paisagem quase lunar da Ponta dos Capelinhos, na freguesia do Capelo, onde eclodiu, em 1957, o célebre e fatídico Vulcão dos Capelinhos, que se manteve em erupção durante treze meses, até que se apagou a 14 de maio de 1958, atribuindo então o povo faialense tal graça a uma intervenção divina de Nossa Senhora de Fátima. Dessa erupção surgiu um dos maiores surtos emigratórios de que há memória dos Açores para os Estados Unidos da América. Hoje este perigoso vulcão, que espalhou as suas cinzas pela ilha, cobrindo e destruindo parte dela, dorme apenas.

Estava na ilha do melhor bar do mundo, considerado assim, em 1968, pela revista Newsweek, o Peter’s Café Sport. Curiosamente, o bar chama-se Peter’s não porque o seu proprietário tivesse esse nome de nascimento. José Azevedo, já falecido e hoje substituído no negócio pelo seu filho José Henrique Azevedo, foi assim apelidado por um oficial do navio da Royal Navy, HMS Lusitania II, por então o jovem José ser muito parecido com o filho desse inglês de nome Peter.

José Azevedo, com o café localizado em frente à marina da Horta, prestou toda a sua vida relevantes serviços aos iatistas oriundos das mais diversas latitudes, dando-lhes todo o apoio em terra. Veria mais tarde o seu trabalho em prol da ilha, dos Açores e do país reconhecido pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, quando este o agraciou com o Grau de Oficial da Ordem de Mérito, e pelo Papa João Paulo II, que, pelos seus préstimos às gentes do mar, lhe concedeu a Bênção Apostólica.

Saborear um gin fresco no Peter’s, tido como o melhor gin do mundo, enquanto se desfruta da maresia que nos chega do canal, junto à floresta de mastros de iates que hasteiam bandeiras de múltiplas nacionalidades, e deixarmo-nos viajar nos desenhos que decoram as paredes do ancoradouro a transbordar engenho e arte de marinheiros em saudação é percebermos que a insularidade também pode ser universal, é conseguirmos sentir no peito essa intensidade que é ser-se ilhéu para o mundo, é surfarmos a onda da atlanticidade e, conscientemente, ousadamente, adotarmos a ilha para sempre.

A ilha do Faial, conforme cartografia do século XIV, chegou a chamar-se de ilha da Ventura. Mais tarde, em 1460, no testamento henriquino, viria a ser rebatizada de ilha de São Luís.

Com todas as dúvidas históricas que possam subsistir, reza Gaspar Frutuoso ter curiosamente havido um eremita chegado do reino que habitava a ilha sozinho e que lá foi vivendo de gado miúdo. Esse terá sido o primeiro habitante do Faial. O seu isolamento só era interrompido no verão, quando proprietários terceirenses se deslocavam à ilha para visitar as suas fazendas e contar o gado existente.

Os primórdios do povoamento em massa desta ilha estarão ligados a um nobre flamengo, Joss van Hurtere, que, em 1467, desembarcou na ilha chefiando uma expedição organizada pela Duquesa de Borgonha. Segundo o geógrafo alemão, Martin Behaim, a duquesa decidiu enviar “Homens e mulheres de todas as condições, e bem assim como padres, e tudo quanto convém ao culto religioso, e além de navios carregados de móveis e de utensílios necessários à cultura das terras e à construção de casas, e lhes deu, durante 2 anos, tudo aquilo de que careciam para subsistir …”

O Faial tem hoje cerca de quinze mil habitantes, segundo censos de 2011.

A Horta, capital da ilha, é, no seu centro, uma urbe plana e bonita. A sua proximidade ao mar, o casario antigo que exibe ladeando ruas bem desenhadas, os seus magníficos hotéis e residenciais com vistas esplêndidas sobre o canal e as suas gentes, habituadas que estão a essa comunicação “suis generis” com o mundo exterior através dos iatistas chegados das cinco partidas do planeta, mas também dos visitantes vindos por via aérea, é um encanto de cidade onde apetece estar e permanecer. Esta urbe açoriana, onde se encontra sediada a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, foi elevada de vila a cidade em 1832 por D. Pedro IV.

Tomar um banho na praia de águas calmas, quentes e pouco profundas da abrigada praia de Porto Pin; degustar um bacalhau ou uma feijoada regionais no restaurante A Árvore, na Rua da Conceição, subir à Caldeira e ver com estupefação a soberba cratera, deixada pelo afundamento do topo de um vulcão, há dez mil anos, com bordos que mergulham abruptamente em matos e num sereno manto de água que os espelha, são alguns dos momentos inesquecíveis que a ilha pode oferecer.

A “Semana do Mar”, que acontece todas as primeiras semanas de agosto, é a grande festa estival da ilha, atraindo açorianos vindos de todo o arquipélago, continentais e estrangeiros, onde, entre estes, pontificam os muitos iatistas que por essa altura ainda povoam a marina da Horta. Essa é uma altura privilegiada para visitar a ilha azul.

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.