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João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

Graciosa, a ilha branca

Paralelo 38

João Gago da Câmara

A ilha Graciosa junta à beleza das suas vilas freguesias marcadas por uma arquitetura rural única, com igrejas centenárias, moinhos de vento de traça flamenga e ritmos de vida tranquilos entre pastagens, pomares e vinhas cultivadas em “curraletas” sobre campos lávicos

A planura também existe na orografia das ilhas açorianas. Situada a noroeste da Terceira, a mais plana das ilhas açorianas e, por isso, a mais carenciada de pluviosidade, portanto, desse bem precioso que é a água, está a Graciosa, ilha classificada pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera.

Raúl Brandão chamou-lhe a Ilha Branca, nome por que é conhecida ainda hoje, dado o quase total do casario estar pintado de branco e dada a cor que a ilha toma, um tom esbranquiçado, no final do verão, devido a um período de maior seca.

Os cerca de 4 500 habitantes desta ilha confluem principalmente para a vila de Santa Cruz, uma zona classificada, pela sua peculiar arquitetura, centro urbano belo, bem encastrado numa paisagem ilhoa envolvente igualmente de singular beleza. Santa Cruz da Graciosa, sede do único concelho da ilha, é, na verdade, uma das vilas açorianas com mais encanto. Fundada em 1470, comporta uma arquitetura singular, onde, entre o casario pitoresco, sobressaem casas senhoriais, igrejas, ermidas e uma infinidade de pequenos fortes junto à costa, outrora úteis para dissuadir invasores estrangeiros e piratas. Desfrutar das ruas e praças desta pequena urbe, onde em cada recanto se respira história e, numa das suas pastelarias, degustar as famosas queijadas da ilha é, acreditem, uma experiência inolvidável.

Na vila da Praia, antiga vila sede de concelho e primeira capital da ilha, o casario, as igrejas e os típicos moinhos de vento flamengos enquadram-se numa paisagem natural magnífica, onde sobressaem o imponente vulcão da Caldeira, uma maravilhosa praia de areia escura, um vulcão com cratera em ferradura e, como cenário de fundo, no mar, o ilhéu da Praia, verdadeiro santuário de aves marinhas raras.

A ilha Graciosa junta à beleza das suas vilas freguesias marcadas por uma arquitetura rural única, com igrejas centenárias, moinhos de vento de traça flamenga e ritmos de vida tranquilos entre pastagens, pomares e vinhas cultivadas em “curraletas” sobre campos lávicos. As localizadas no centro e noroeste desta ilha são famosas pela produtividade agrícola das suas hortas assentes nos melhores solos dos Açores.

As escassas disponibilidades de água doce levaram os graciosenses a desenvolverem engenhosos sistemas de captação, armazenamento a adução de água, com uma arquitetura própria que vale a pena conhecer. Desta constam bebedouros, chafarizes, pias de lavar e reservatórios ou tanques que deslumbram qualquer mirone.

A natureza da ilha Graciosa seduz pelos seus ilhéus rochosos, verdadeiros tesouros da ornitologia mundial, também pela água do mar absolutamente cristalina, pelo termalismo e pela extraordinária beleza dos seus vulcões.

A história geológica desta ilha compreende-se melhor quando a visionamos do mar. São fluxos de lava que, a partir de terra, penetraram no oceano originando promontórios, escolhos e numerosos ilhéus. São imponentes falésias costeiras onde as massas rochosas exibem tons esbranquiçados e o colorido das bagacinas do calcinado dos cones vulcânicos erodidos do Porto Afonso testemunham a espantosa atividade eruptiva da metade norte da ilha.

A Furna do Enxofre, localizada no interior da caldeira da Graciosa, constituiu uma das mais imponentes catedrais do vulcanismo mundial. Corresponde a uma enorme cavidade formada pela recessão de lavas durante uma erupção vulcânica, no fundo da qual existem fumarolas e uma interessante lagoa.

As melhores águas termais dos Açores localizam-se nas famosas Termas do Carapacho, utilizadas pelas graciosenses e demais açorianos do grupo central desde os primórdios do povoamento. Consideradas milagrosas desde o século XVII, nos seus 40 graus centígrados, tratam patologias do foro reumatológico e estimulam o rejuvenescimento da pele, dada a presença de cloro, sódio e compostos de enxofre.

Ocorre na ilha Graciosa uma curiosa praia com areias de cor vermelha formadas a partir de projeções vulcânicas. Esta localiza-se junto a uma zona de espetaculares fundos subaquáticos, forjados pelas lavas incandescentes ao penetrarem no mar e pela impressionante fauna e flora marinhas que aí se estabeleceram.

Os fundos marinhos da ilha Graciosa têm características excecionais para o mergulho. Apresentam um micro-relevo acentuado, com cavidades e grutas plenas de biodiversidade marinha e águas cristalinas e transparentes, fruto da ausência de depósitos arenosos finos.

Com uma linha de costa muito baixa, cheia de pequenas calhetas – excetua-se o lado noroeste da ilha onde se encontra a bonita Serra Branca com a sua falésia de mais de 300 metros de altura – a Graciosa, no verão, oferece zonas balneares que são um regalo para naturais e visitantes. O porto de Santa Cruz, o antigo porto baleeiro Cais da Barra, o porto da vila da Praia e a Baía do Filipe são pedras pretas que chamam solenemente os amantes do mar.

Venha à Graciosa, a ilha branca dos Açores. Deixar-se-á encantar.

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.