Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

São Jorge, a peculiar ilha açoriana das fajãs

Paralelo 38

João Gago da Câmara

Jorge Bettencourt

Imagine-se sentado num terraço de uma casinhota a almoçar amêijoas da ilha, regadas por um bom vinho branco dos seus vinhedos, com a escarpa a seus pés a precipitar-se sobre um mar intensamente azul e, quinze quilómetros à sua frente, a vizinha ilha do Pico a elevar a sua gigantesca e mágica montanha sobre as águas

Uma cordilheira montanhosa com uma altitude máxima, no Pico da Esperança, de 1053 metros, atravessa São Jorge, uma ilha altaneira, cheia de arribas altas, com um comprimento de cinquenta a cinco quilómetros e com oito quilómetros de largura no máximo.

Descoberta a seguir à ilha Terceira, em 1450, supõe-se que por Jácome de Bruges, e povoada dez anos depois, São Jorge, caracterizada pelos seus três complexos vulcânicos, do Topo, dos Rosais e das Manadas, tem dois concelhos, o de Velas e o de Calheta, ambos com as suas vilas à beira-mar.

Esta é a conhecida ilha das fajãs, dada a sua orografia muito peculiar, dotada de falésias que descem para pequenas planícies que o jorgense aproveitou para o cultivo de árvores de fruta e de outras culturas, inclusive para apascentar gado, que, de outro modo, dificilmente conseguiria aguentar as intempéries ventosas e frias nas zonas mais altas da ilha. As fajãs são lugares paradisíacos porque, com pouco casario e muita vegetação. Algumas deixando-se acessar somente a pé, são dotadas de uma beleza surreal e única.

Há inúmeras fajãs que poderá visitar. A dos Vimes, que foi durante muito tempo o único lugar do arquipélago onde se cultivava café, a do Ouvidor, onde num pequeno restaurante se comem deliciosas amêijoas, a dos Cubres, que permite o acesso à fajã mais emblemática de todas – a de Santo Cristo, em cuja lagoa se apanham as melhores amêijoas do mundo, a de São João, de longe a minha preferida, por fazer lembrar em sonhos o paraíso, entre muitas outras sempre sossegadas, belas e aprazíveis.

Imagine-se sentado num terraço de uma casinhota a almoçar amêijoas da ilha regadas por um bom vinho branco dos seus vinhedos, com a escarpa a seus pés a precipitar-se sobre um mar intensamente azul e, quinze quilómetros à sua frente, a vizinha ilha do Pico a elevar a sua gigantesca e mágica montanha sobre as águas. E ali pernoitando, à noite, o Pico mostra, na sombra da imensa montanha, um presépio de luzinhas debruçadas sobre o mar negro.

Na caldeira do Santo Cristo, a sua lagoa de água doce mistura-se com o mar, constituindo um habitat privilegiado para amêijoas e outros pequenos peixes. É também, pelas suas águas protegidas, uma imensa piscina natural, que, vista de cima, do planalto que é a ilha, parece uma poça de luz geminada com o mar. Esta fajã está hoje classificada como Reserva Natural e Área Ecológica Especial.

Gaspar Frutuoso escreveu sobre esta ilha que “há nela muito gado vacum, ovelhum e cabrum, do leite do qual se fazem muitos queijos em todo o ano, o que dizem ser os melhores de todas as ilhas dos Açores, por causa dos pastos (…).” (Da Descrição da ilha de S. Jorge. In Saudades da Terra, Livro VI, cap. 33). De facto, hoje, tal como outrora, se faz queijo em S. Jorge. E continua sendo também o mais apreciado no arquipélago.

Para além das muitas pastagens que cobrem esta ilha-planalto e por onde pascentam o gado, temos as povoações, muitas delas localizadas em fajãs, por vezes tão grandes que nem damos pelo facto de serem fajãs. Parece-me o caso das vilas de Velas e de Calheta, pois, para quem queira aceder-lhes por terra, terá de descer em cada uma delas por estrada sinuosa e bastante a pique em certos troços até que chegue à relativa planura onde se espraiam viçosamente entaladas entre grandes arribas e o mar.

Alguns dizem que o nome Velas dever-se-á às velas das embarcações, por ser um povoado à beira-mar. Na verdade, ainda hoje, se verifica um tráfego marítimo teimosamente intenso entre as chamadas ilhas do Triângulo (S. Jorge, Pico e Faial). A vila de Velas é um dos vértices desse triângulo. Outros aventam a hipótese do nome ter a ver com as crises vulcânicas que levavam as populações a ficar em casa a velar, ou de vigília, para poderem dar o alerta durante um evento sísmico de maior intensidade.

A leste e de rosto virado para a Terceira, embora esta última não se aviste deste ponto da ilha, e de costas para as Velas, está a Calheta. Diz-se que é mais fácil um habitante da Calheta deslocar-se à Terceira do que ir à vizinha vila de Velas. São as más-línguas que o dizem para apimentar as rivalidades existentes entre as duas vilas da ilha. Verdade ou não, os terceirenses sorriem deliciados perante o dito. Contudo, preciosa e calma, a Calheta repousa, alongando-se mansamente no mar. Há uma estrada de poucos quilómetros que corre do porto até ao fim da Fajã Grande. Quase sempre junto ao oceano, por vezes parecendo ao nível do mar, é um monumento de beleza e solidão, onde por vezes se avista a ilha do Pico, ou só a montanha do Pico, com o seu chapéu de nuvens ou com um manto de neve, verde ou azul, mas uma presença quase constante ao longo de toda a costa norte da ilha de São Jorge.

Esta ilha e as suas múltiplas fajãs é um paraíso no grupo central do arquipélago dos Açores. São Jorge com os seus queijos de sabor único no mundo, deliciosas conservas de atum e ameijoas gostosas extraídas da Lagoa do Santo Cristo é uma ilha preciosa. São Jorge, planalto esguio por onde escorrem escarpas vertiginosas que amedrontam mas que apaixonam, estende o seu verde do topo ao mar profundo e infinitamente azul. Atreva-se. Venha conhecer a ilha das fajãs.

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.