Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

Terceira, ilha de Jesus Cristo

Paralelo 38

João Gago da Câmara

D.R.

A Terceira é, das ilhas dos Açores, a mais hospitaleira. Se caminhar num dos bonitos passeios de Angra, cidade a sul da ilha, ou da Praia, urbe localizada a leste, as gentes da terra olham-no nos olhos e sorriem naturalmente para si, dão-lhe os bons dias, perguntam-lhe se precisa de alguma coisa, convidam-no graciosamente para as festas populares em suas casas ou nos terreiros onde o povo se reúne e alegremente festeja

Neste périplo pelos Açores e após visitarmos as ilhas de Santa Maria e de São Miguel, aproamos hoje ao grupo central do arquipélago rumo à Terceira, antigamente denominada por ilha de Jesus Cristo das Terceira por ter sido a capital administrativa das ilhas Terceiras, designação que se dava ao arquipélago, hoje dos Açores, por haverem sido estas ilhas açorianas as terceiras a serem descobertas. As primeiras foram as do arquipélago das Canárias e as segundas as do arquipélago da Madeira.

A ilha Terceira é formada por três grandes centros eruptivos, o mais antigo dos quais emergiu do Atlântico Norte há três milhões de anos, e por dezenas de pequenos vulcões, alguns dos quais, como o Algar do Carvão, visitáveis no seu interior.

Na Ponta da Serreta, os traços da paisagem são deslumbrantes, marcados por portentosas torrentes de lava que penetraram no mar.

A Costa das Contendas é outra beleza da ilha. O colorido calcinado das suas formações rochosas e numerosos ilhéus apaixonam até os mais abstraídos.

A costa oeste de Angra em recorte, desenha numerosos promontórios lávicos que formam lindíssimas baías, outrora refúgio de caravelas e de piratas. Aí observa-se ecossistemas únicos e magníficos por-do-sol com as vizinhas ilhas de São Jorge e do Pico no horizonte.

Dada a sua posição geoestratégica no Atlântico Norte, a ilha Terceira teve um papel fundamental no império português aquando da sua progressão marítima de e para além mar.

Há uma característica geológica interessante nesta ilha. O facto de, na caldeira dos Cinco Picos, a ilha ser atravessada pelo rifte da Terceira, que faz fronteira entre a microplaca dos Açores e a placa euroasiática.

A Terceira é, das ilhas dos Açores, a mais hospitaleira. Se caminhar num dos bonitos passeios de Angra, cidade a sul da ilha, ou da Praia, urbe localizada a leste, as gentes da terra olham-no nos olhos e sorriem naturalmente para si, dão-lhe os bons dias, perguntam-lhe se precisa de alguma coisa, convidam-no graciosamente para as festas populares em suas casas ou nos terreiros onde o povo se reúne e alegremente festeja.

O terceirense só é feliz com festas e o toiro é a sua bênção maior. Ganadeiros criam o toiro bravo que depois expande a sua bruteza selvagem e inocente amarrado e controlado por pastores, percorrendo a passo lento, mas ameaçador, também a trote e a galope, as ruas das cidades, vilas e aldeias, sendo toureado em festa rija pelos populares mais bravos e corajosos. E as famílias juntam-se lá fora, nos pátios e jardins das moradias a admirar a corpulência do animal e o atrevimento, a coragem e a destreza dos rapazes do sítio, os denominados “capinhas”, às vezes perigosamente colhidos, alguns deixando mesmo lá a vida. Deste modo, o espetáculo, que sempre tem um começo de alegria, acaba às vezes tristemente, misturando-se nos dias de má sorte urros da besta com sirenes de ambulâncias.

Como nas touradas à corda saem quatro toiros, no final do evento tauromáquico dá-se o encontro gastronómico de familiares e amigos a que chamam jocosamente de o quinto toiro.

Há ainda em Angra uma praça de toiros, que é gerida pela Tertúlia Tauromáquica Terceirense, por onde já passaram os maiores nomes do toureio mundial.

Forte tradição nesta ilha é ainda a do Carnaval, que se exprime através do teatro e da música. Dezenas de grupos de populares correm a ilha, de sexta a terça-feira de entrudo, interpretando peças originais que retratam e criticam o quotidiano. É, portanto, do povo que saem os atores dos “bailinhos” que sobem aos palcos com estilo e genialidade. Dançam, cantam e representam. E ali não há meias palavras. O que é para se dizer, diz-se, doa a quem doer. Ali cai-se na boca do povo!

Os enredos têm títulos como “A corda é pior que o toiro”, “Isto é pior do que a tropa”, “Pescadores de água doce”, “Toiros fedorentos”, “Terceira, terra dos bravos”, todos em sentido figurado.

Este carnaval ilhéu, com as denominadas danças e bailinhos, apresentados de uma ponta à outra da ilha nas associações recreativas e culturais, casas do povo, juntas de freguesia e afins, são realizados, produzidos e postos em cena por atores amadores provenientes de todos os povoados da terra, e com os “assuntos” cómicos (enredos ou argumentos), os artistas conseguem arrancar fortes gargalhadas ao povo residente e aos visitantes. Os festejos vão pelas noites dentro, amontoando povo e promovendo a confraternização, que é o que ali o povo quer.

Filarmónicas tocam, estridente e maravilhosamente, nas festas de São João, que são em junho, as terceirenses “Sanjoaninas”, e também nas grandiosas “Festas da Praia”, em agosto, e o povo bairrista da sua Terceira todos os anos, no verão, exulta de orgulho e vibra de alegria e de prazer.

O terceirense não vive para trabalhar, trabalha para viver!

Os dois concelhos desta ilha, o de Angra do Heroísmo e o da Praia da Vitória, encontram-se ambos instalados à beira-mar, dispondo por isso de zonas balneares naturais prazerosas. São múltiplas as piscinas bem tratadas e higienizadas que fazem da época balnear terceirense uma das mais apreciadas dos Açores. Em Angra, poderá banhar-se na Prainha, na Silveira, no Negrito, nas Cinco Ribeiras, no Refugo, na Salga e nos Salgueiros; na Praia da Vitória, na baía da Praia e nas zonas balneares dos Biscoitos, do Porto Martins, das Quatro Ribeiras, das Escaleiras, na Praia da Riviera e na Caldeira das Lajes.

A Terceira tem Angra do Heroísmo encimada pelo paradisíaco Monte Brasil, o maior aparelho vulcânico submarino emerso dos Açores, hoje extinto, que emergiu das profundezas do mar há cerca de 22 mil anos.

Na sua base, o Monte Brasil mostra a monumental fortaleza filipina de São João Batista (1580-1640), tomada então pelo espanhol Álvaro de Bazán, Primeiro Marquês de Santa Cruz de Mudela, quando a Terceira foi tomada por tropas espanholas. Esta fortaleza, erigida para proteger dos piratas e corsários as riquezas vindas nas naus de África, da Índia e do Brasil, constitui hoje uma das maiores fortificações do Atlântico Norte.

Do outro lado da cidade, a encimar o bonito jardim citadino, Duque da Terceira, está o Alto da Memória, onde, em 1744, o Capitão do Donatário João Vaz Corte Real fez construir a primeira fortificação de Angra, o denominado Castelo dos Moinhos.

Representa-o hoje um obelisco, este erigido no século XIX, homenageando a passagem pela Terceira de D. Pedro IV por altura da guerra civil. Angra está cheia de rico e belo património arquitetónico, na sua maioria devidamente preservado.

O Forte de São Sebastião, mais conhecido por Castelinho, cimeiro à baía de Angra, é outro motivo de orgulho angrense.

A Diocese de Angra e ilhas dos Açores está sediada nesta que foi classificada pela UNESCO, em 1983, Cidade Património Mundial da Humanidade.

Verdadeira cidade museu, Angra, que foi a primeira cidade dos Açores, mantém intacto o seu traçado renascentista original, albergando uma inestimável riqueza cultural.

Na cidade da Praia da Vitória, do concelho do mesmo nome, nasceu Vitorino Nemésio.

Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó,
Mereça a Deus lá ficar

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso

Quando se diz “Seja feita”
Eu sentirei na garganta
A mão da morte, direita
A este peito, que ainda canta

Vitorino Nemésio, in “Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga”

Ali fixaram residência o Capitão do Donatário Jácome de Bruges e o lugar-tenente Diogo de Teive, bem como os primeiros povoadores da ilha, sendo então a Praia sede da Capitania da Terceira.

A Praia da Vitória teve uma importância histórica de registo para Portugal pois ali, em 1582, no seguimento da célebre Batalha da Salga, D. António Prior do Crato foi aclamado rei.

Três séculos e meio mais tarde, em 1829, aquando da guerra civil portuguesa, ali aconteceu a célebre Batalha da Baía da Praia, sendo corajosamente travado o desembarque dos miguelistas, o que valeu à Praia o título do reino de “Mui Notável” e da “Vitória”.

Poderá ter uma visão geral da bonita cidade da Praia da Vitória subindo ao Miradouro do Facho, no cimo da serra do Facho, tendo-lhe sido atribuído este nome antigamente por haver uma fogueira acesa todas as noites a servir de farol à navegação marítima. Lá encontra um monumento do Imaculado Coração de Maria, que é a padroeira da Praia da Vitória.

É neste concelho que se encontra a Base Aérea das Lajes, dotada de uma pista de três mil trezentos e cinquenta metros de comprimento, que até há pouco tempo serviu também a Força Aérea dos Estados Unidos da América. Recentemente, o seu aeroporto foi certificado também para a aviação civil, passando a ter a designação, e muito bem, de aeroporto internacional.

Aterre nesta enorme pista atlântica e venha conhecer a ilha mais hospitaleira dos Açores, a Terceira.

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

Jornalista e Escritor

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.