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Vinhos açorianos, grandes enólogos e vendedores de gato por lebre

Paralelo 38

João Gago da Câmara

Foto Siram

Os vinhos açorianos são hoje um produto escasso, procurado e quase sempre esgotados e o seu reconhecimento é uma constante por especialistas nacionais e internacionais

Instalou-se muito recentemente no arquipélago açoriano uma forte polémica sobre alegados “falsos vinhos dos Açores” que consta que de genuínos teriam pouco uma vez haver produtores que, não tendo produção própria suficiente para satisfazer uma crescente procura dos mercado, importam vinho do continente engarrafando-o com nomes e imagens alusivas aos Açores, fazendo assim crer ao consumidor que o precioso líquido vem de vinhedos açorianos.

O desconforto de grandes produtores de vinho dos Açores, mais precisamente da “Azores Wine Company”, da “Cooperativa Vitivinícola do Pico” e dos “Vinhos Czar” manifestou-se logo ao ponto destas entidades apresentarem uma queixa conjunta metida no final do ano passado à Inspeção Regional das Atividades Económicas. Depois desses produtores já Daniel Rosa, vice presidente da Cooperativa do Pico, em entrevista à RTP Açores mostrou o seu descontentamento, preocupação e repulsa por esta situação que atinge o arquipélago açoriano. Estes três produtores denunciantes, presentemente considerados os mais importantes da ilha do Pico, produzem em conjunto mais de 80% do vinho certificados dos Açores e contratam a grande maioria dos mais de 300 viticultores da ilha. A sua preocupação, recordo, deve-se ao aparecimento e multiplicação de marcas de vinhos de mesa embalados com rótulos que incluem imagens e nomes relacionados com o arquipélago açoriano, fazendo os vinhos passar enganadamente por vinhos dos Açores quando esse vinho engarrafado é, na sua larga maioria, continental.

A história dos vinhos dos Açores remonta a quinhentos anos atrás mas tem tido percursos sinuosos. Ademais, doenças como o Oídio e a Filoxera atingiram fortemente a vinha açoriana quase a fazendo desaparecer. Não fosse o protagonismo de reputados enólogos, como António Maçanita da “Azores Wine Company”, Anselmo Mendes e Diogo Lopes da “Adega Cooperativa dos Biscoitos”e Bernardo Cabral da “Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico” e a catástrofe poderia ter acontecido, perdendo-se esta mais-valia histórica, cultural e económica açoriana.

Atente-se que os vinhos genuínos açorianos são hoje um produto escasso, procurado e quase sempre esgotado e o seu reconhecimento é uma constante por especialistas na área nacionais e internacionais. As baixas produções fazem que sejam vendidos em pequenas quantidades e a preços elevados a alguns dos melhores restaurantes do mundo que valorizam a qualidade e a autenticidade das uvas das nossas ilhas. E esta realidade concorre para que os Açores sejam hoje a região com as uvas mais caras do país, com preços a rondar os 5 euros por quilo, ou seja, dez vezes mais caras do que na maior parte das restantes regiões portuguesas.

Para além da intervenção ainda atempada dos mencionados enólogos, o sucesso dos vinhos produzidos nos Açores deve-se justamente a mais de 300 viticultores que viram nesta revolução agrícola sustento próprio e satisfação por retomarem as velhas vinhas que existiram aumentando substancialmente as suas explorações. Ainda há pouco tempo havia apenas na ilha do Pico 120 hectares de vinha. Nos últimos quatro anos foram recuperados na ilha montanha mais de 700 hectares, uma recuperação deveras extraordinária. O que ainda há pouco tempo era uma região vitivinícola em progressivo desaparecimento é hoje um dos mais bem sucedidos resgates, voltando-se a pôr de novo o vinho açoriano nas mais requintadas mesas do mundo.

Recordo que ainda há poucos dias foi lançada a primeira pedra da nova “Adega da Azores Wine Company”. Que melhor prova de que esta recuperação veio para ficar? … Mas, atenção, este percurso com novas estratégias dá os seus primeiros passos. É, portanto, frágil. É que recuperar a confiança do consumidor e do viticultor demorou tempo, devendo-se este trabalho à dedicação, carolice e a investimentos de monta de muitos dos protagonistas atrás descritos, entre outros mais. E a confiança, assim como se ganha também se perde rápido, mantendo-se esse processo ainda extremamente periclitante. Alguns produtores e armazenistas viram na subida dos preços do vinho açoriano, na reputação da marca Açores e no aumento exponencial do turismo nos Açores uma oportunidade de vender vinhos com rótulos que incluem imagens e nomes relacionados com os Açores, mas que, alegam os atrás mencionados entendidos, não têm nada a ver com vinho dos Açores. Bastará virar a garrafa e ver que o selo não é de vinho produzido e fabricado na região insular. O selo IVV (Instituto da Vinha e do Vinho) garante apenas que o produto engarrafado é vinho, mas e quanto à informação estritamente necessária da origem desse vinho, que até poderá vir da China, nada. O consumidor não sabe o que está lá dentro … e não será mesmo preferível que não saiba?

Quando se deslocar a uma loja de produtos locais dos Açores, experimente virar as garrafas de vinho e observe que, misturados com vinhos certificados Açores, surgem outros apenas com o selo IVV mas sem certificação de vinho Açores. E verá rótulos com imagens de baleias, do vale das Furnas, das lagoas e até vinhos que mudam a maré, induzindo o cliente em erro para que pense que estará a adquirir um produto genuinamente regional açoriano.

Estes vinhos, claro está, são vendidos a preços mais baixos do que os genuínos sendo por isso convidativos à carteira do comprador, mas feitas as contas não dariam nem para pagar um quilo de uvas produzidas em cenários açorianos improdutivos de pedra onde nenhum trator consegue entrar sendo o homem a fazer todo o trabalho à mão, como antigamente, e são áreas que produzem entre 700 a 1500 quilos por hectare, quando o normal no continente é produzir-se dez vezes mais.

Em suma, a qualidade duvidosa de produtores de vinhos importados de regiões exteriores aos Açores prejudica sobremaneira a imagem da Região Autónoma no exterior colocando em risco a ainda frágil reputação dos saborosos vinhos certificados açorianos.

Exija-se, pois, que produtores prevaricadores e fora da lei cumpram o estipulado legal. Trabalhe-se para que restaurantes, lojas e distribuidores denunciem essas situações. Que a Direção Regional do Desenvolvimento Rural, que tem poderes delegados pelo IVV na Região, não autorize rótulos que induzem o consumidor em erro pensando que está a comprar um vinho açoriano quando não está; que a CVR Açores assegure que no mercado não serão colocados vinhos que não cumpram o estipulado, protegendo a marca Açores; que a Inspeção Regional das Atividades Económicas implemente ações de inspeção ao comércio e à restauração. Não se pode pôr vinhos que não são de uvas açorianas numa loja de aeroporto e em estabelecimentos de vendas de produtos regionais açorianos não certificados ou não subordinados à categoria Açores.

Quero crer que serão poucos os que saberão que existem apenas duas regiões de vinho em Portugal que são Património Mundial da Unesco. Uma é o Douro, a outra é o Pico, nos Açores. E estas duas regiões fazem parte de um grupo pequeno de catorze regiões Património da Unesco no mundo.

É necessário e urgente que protejamos o nosso vinho!

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara

João Gago da Câmara, natural da ilha de São Miguel, nos Açores, nascido em 1956, exerceu a profissão de jornalista/locutor na RTP Açores e redator/repórter no jornal Correio dos Açores. Fundou ainda o seu próprio jornal, o Correio do Norte. Publicou dois livros, o primeiro de crónicas lançadas na imprensa escrita, “Fragmentos entre dois Continentes”, o segundo em forma de reportagem realizada em Santa Catarina abordando a emigração açoriana para o sul do Brasil, que intitulou de “Dos Vulcões ao Desterro”. O jornalista e escritor, hoje aposentado, colaborou com as rádios Clube de Angra, Nova Cidade, Pico, Graciosa, Asas do Atlântico, Voz do Emigrante e ainda na imprensa escrita com crónicas semanais no Diário dos Açores e no Diário Insular, no arquipélago açoriano; no Portuguese Times e no Portuguese Tribune, nos Estados Unidos da América e ainda no Milenio Stadium e no Voz de Portugal, no Canadá.