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O maior falsário de sempre

Os trabalhos e os dias

O julgamento de Wolfgang Beltracchi

Vi no Youtube um filme sobre o alemão Wolfgang Beltracchi, considerado o maior falsificador de quadros de sempre (tendo suplantado, ao que parece, o holandês Van Meegeren). 

Tal como o holandês havia feito, tentou usar uma metodologia perfeita, procurando telas, pigmentos e molduras de cada época. Depois pintava quadros totalmente novos, mas inspirados no estilo e na mente dos copiados, de modo aos especialistas reconhecerem a presença estilística e mental do pintor em causa. Acabou por ser traído por um químico presente numa tinta cuja marca se esqueceu de o incluir nos "conteúdos".  

Há duas questões a reflectir, na minha opinião. 

Em primeiro lugar, Beltracchi, no fim (já depois de ser preso), diz que não se arrepende de nada. A não ser, claro, de ter usado a tal tinta que o tramou. Pergunto: é legítimo - apesar de não ser legal, eu sei - pintar um quadro "à maneira de"? Porque penso que ele não assinava os quadros com o nome do pintor plagiado. Apenas punha os quadros a circular, deixando que os especialistas os declarassem legítimos em função do estilo e da técnica do suposto autor.  

Em segundo lugar, pergunto-me se esta arte "falsa" terá menos valor artístico do que a verdadeira, quando os peritos dizem tratar-se de obras "excepcionais". Que foi o que aconteceu com o Van Meegeren: pintou um quadro que os peritos diziam ser um dos melhores trabalhos de Vermeer. 

Não posso tentar dar resposta a estas questões sem falar do valor comercial da arte, que atingiu proporções astronómicas. É por essa razão, sem dúvida, que Beltracchi ri quando a Christie's coloca um quadro seu na capa (!) de um catálogo, para o vender por milhões de euros. Beltracchi (como aconteceu com Van Meegeren) está representado nalguns dos melhores museus do mundo e só ele sabe que os quadros são seus e não do suposto e célebre pintor em causa. Se a pintura não alimentasse um mercado financeiro colossal, e apenas existisse para deleite dos visitantes dos museus (de preferência gratuitos), nada de semelhante alguma vez aconteceria. Porque - e aí vamos à segunda questão - é de perguntar se estes quadros "falsos" não terão tanto valor artístico, ou mais, do que muitos dos originais. De facto, em elevada percentagem destes últimos, o valor financeiro é determinado pela assinatura e não pelo conteúdo artístico. O Picasso dizia: "sim, é só um risco, mas fui eu que o fiz...". Nesses museus "imaginários" (estou a brincar com o título de um livro do Malraux), a apreciação seria feita como nas avaliações dos concursos para as bolsas científicas, ou seja, em blind, não se sabendo o nome do candidato. Nessas circunstâncias, apreciar-se-ia apenas a arte e não haveria necessidade de haver falsários. Até porque estes falsários são pintores extraordinários e veriam os seus trabalhos apreciados de forma autêntica. 

Estou a encaminhar-me para uma proposta estranha: os quadros candidatos a um museu eram avaliados sem se conhecer o nome do autor. Apenas o valor artístico contaria. Depois de seleccionados, poderiam aparecer com o nome dos autores ao lado (parece-me justo). Mas, na próxima candidatura, os quadros viriam anónimos de novo. Será que este delírio imaginativo é viável? 

Não me parece. Por uma razão simples. Porque, à segunda candidatura, os autores seriam reconhecidos pelas características dos quadros. O que mais define um artista é um estilo. Um traço pessoal distintivo e único que ele faz transparecer. Por estar dentro de si, por ser ditado pela sua individualidade, pela sua própria unicidade. Em grande parte dos casos, não é preciso ler o nome do autor para o reconhecer. Percebe-se que é um Rothko, um Pollock, um Van Gogh, ou um Vermeer. Logo, pintar como um Van Gogh não é o mesmo do que ser um Van Gogh. Porque falta ao quadro a segunda característica da arte que o Popper definiu, e que eu já aqui referi uma vez: a "integridade" (ser resultante e indissociável de uma sensibilidade pessoal). Para existir verdadeira arte, é necessário que o pintor transmita o que lhe vai na alma, a essência do seu ser, e não a esperteza racional que obteve depois de estudar o artista que vai imitar. 

Beltracchi pode ser um sobredotado da técnica e um homem muito inteligente e meticuloso. Ou seja, um grande pintor. Mas não é um artista.