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"Isto é cidade"

Os trabalhos e os dias

Cidade rima com liberdade

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A revista XXI, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, editou um novo número, desta vez sobre as cidades, chamado "Isto é cidade". Escreveram muitos ilustres e eu também quero dizer de minha justiça. Apesar de o António Mega Ferreira terminar a revista (último artigo) com a sua habitual mão de mestre.

Começo por explicar que penso existir uma diferença conceptual entre "cidade" e "meio urbano". Como existe entre "campo" e "meio rural". A cidade e o campo são espaços físicos. Os meios rural e urbano são organizações sociais que lá existem. Ora, quando opomos cidade e campo, este sai beneficiado. Por via de um idílio de ar puro e chilrear de passarinhos. Quando opomos meio urbano e meio rural, este sai devastado. Por via de ninguém querer ir viver para lá. Assim, vou começar por me referir ao meio urbano, e só depois farei alusão à cidade. 

Os meios urbanos exerceram, e continuam a exercer, um poder de atracção intenso sobre os homens. E imagino que um pensador filósofo, sociólogo ou antropólogo (não sei qual deles sou mais) identifique quatro razões de base.

  1. A derrota do controlo social: os indivíduos, sobretudo as mulheres, perdem a subordinação aos "pequenos deuses caseiros", como cantava o J. J. Letria há 40 anos. Tal deve-se, em grande parte, à existência de um mercado de trabalho.
  2. A vitória do anonimato: não só a pessoa não tem de prestar contas a ninguém, como pode andar por onde quer, vestida como quer, que ninguém a conhece ou comenta a sua vida (de novo, maior vantagem para as mulheres).
  3. A vitória da mobilidade social. No meio rural, quem nasce pobre será pobre toda a vida. Destino mais severo para os homens, pois as mulheres, se forem belas, ainda podem arranjar um casamentozinho salvador. O meio urbano traz consigo um conteúdo de "sonho americano", impensável no meio rural
  4. O aparecimento da possibilidade de escolha, e não só nos supermercados. De uma escolha cultural também. O que nos conduz rapidamente ao desejo de algo novo, à ideia de vanguarda, de "estar à frente", de inovação, de derrota da estagnação associada ao meio rural.

Como se pode observar, estes factores interligam-se à volta de um conceito unificador, que é a liberdade. Liberdade em relação aos ricos e poderosos da sociedade tradicional, em relação à família e, no caso das mulheres, em relação aos maridos também. Eu sei que nem sempre é assim, mas pode ser assim.  

É esta uma liberdade, diria, real. Mas receio que exista uma outra, ainda mais forte, sobretudo quando a primeira se aproxima do adquirido. Estou a falar de uma liberdade imaginada, irreal. Se a anterior é concreta (diz respeito a comportamentos específicos que se podem, ou não, ter), esta é abstracta. Alguns chamam-lhe sonho, mas acho esse conceito muito perigoso. Refiro-me à ideia de procura de um caminho próprio. De um indivíduo encontrar-se a si mesmo, descobrir-se, conseguir a sua realização pessoal. De certa forma, a descoberta da individualidade e a convicção que se adquire de podermos ser quem queremos ser. De criarmos uma obra pessoal, original, mais além. Não é por acaso que os artistas sentem uma necessidade imperiosa de viver na cidade. No fundo, o meio rural é um expoente de essencialismo: as pessoas têm o destino traçado à nascença, ou seja, antes de um indivíduo nascer - e se não acontecer qualquer coisa de absolutamente extraordinário - já sabemos que tipo de pessoa será: rico ou pobre, destinado a uma actividade prestigiante ou servil, instruído ou pouco instruído, etc.. Em contrapartida, o existencialismo é provável no meio urbano. Ou seja, os indivíduos encontram aqui a possibilidade de poderem ser os senhores do seu destino e não os meros produtos de uma condenação de gerações. 

Muito bem, ninguém quer viver no meio rural. Mas muitos têm a nostalgia do campo. Por isso, penso que um desafio de futuro seria o de conseguir que se criassem "campos" com uma mentalidade social urbana. Com as novas tecnologias e a rapidez dos transportes, não me parece impossível. As cidades talvez ficassem a perder. Mas a distribuição das pessoas no espaço melhoraria. Agora, há uma coisa que eu sei: isso será impossível enquanto os nossos responsáveis políticos não abandonarem as ideias primárias que vejo defender. A primeira é explicar o êxodo rural pelas questões económicas (se não identificarmos o problema não encontraremos a solução). A segunda é pensar que alguma vez poderemos voltar ao campo se este mantiver as suas "especificidades", "as suas características sociais e culturais" e enormidades semelhantes. 

Frase para reflexão: "gostava de estar no campo para poder gostar de estar na cidade" (F. Pessoa).