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A cidade é nossa

Os trabalhos e os dias

António Costa foi eleito para governar Lisboa. Ao invés, resgata-a a todos

Paulo Chitas

Paulo Chitas

Jornalista

A Câmara Municipal de Lisboa decidiu, mais uma vez, ceder a Avenida da Liberdade, a principal artéria da capital, a uma empresa para a organização de um "evento". Trata-se daquilo que ficou conhecido, por influência dos marketeers, como o "mega-piquenique da avenida da Liberdade".

Digo-o já, nada tenho contra a iniciativa da empresa. Certamente que os seus estrategas atingem os seus objetivos, ao realizar na zona mais nobre de Lisboa a sua iniciativa. Mas, pergunto-me, qual é a legitimidade da Câmara para fechar uma avenida da capital, durante uma semana? A trupe de António Costa justifica a necessidade de privar os cidadãos (munícipes e outros) do coração da capital pelo facto de se tratar de algo "com grande impacto e gratuito".

De facto, tem grande impacto mas certamente não é do tipo a que aludem os magos da autarquia. A circulação automóvel - se é que alguém consegue circular na Avenida da Liberdade, depois das experiências de gestão do tráfego da autarquia - ficou condicionada durante uma semana. E será interdita durante alguns dias. É como se tirassem os Champs Élysées a Paris ou a 5th Avenue a Nova Iorque. Durante uma semana.

A arbitrariedade da decisão e os seus malefícios foram este ano destacados porque os responsáveis das lojas de artigos de luxo situados na avenida fizeram ouvir a sua voz. O traço comum dos que protestam é que não fazem negócios durante uma semana embora paguem as rendas mais caras do país. Quanto a todos os outros, nem consigo imaginar os prejuízos gerados pela insanidade camarária. Portanto, também não é gratuito.

Ao contrário do que António Costa parece crer, a cidade é nossa. Não é dele.  O mandato que os eleitores da capital lhe atribuíram foi para a governar e não para a resgatar aos seus utilizadores. Como o seu mandato foi expressivo - fez uma campanha de grande eficácia, ganhou a autarquia por uma larga maioria - a sua responsabilidade é tanto maior. Poucas vezes tantos confiaram tanto num político - e isso devia merecer da sua parte um especial cuidado na forma como gere a cidade.

Não é a primeira vez que tal acontece. Há umas semanas, aquando da final da Champions League no Estádio da Luz, disputada pelo Real e pelo Atlético de Madrid, a autarquia também decidiu cortar o trânsito. Naquela altura, foi nas imediações do estádio - onde está o principal hospital público da capital e um dos mais importantes do setor privado. Além disso, cortou a circulação na Av. 24 de Julho, para onde desviou as centenas de autocarros que traziam adeptos das duas equipas madrilenas.

O saque dos espaços públicos da capital não se fica por aqui.

Em 2008, a Fundação Champalimaud lançou a primeira pedra do centro onde realiza investigação, na frente fluvial da cidade, entre Belém e Algés.  Mandou o arquiteto fazer um buraco no edifício, para se ver o rio, e pronto. A uns metros de distância, em 2009, na Doca de Belém, foi construído o cinco estrelas Hotel Altis Belém, cujo projeto de arquitectura foi assinado pelo atelier Risco. A empresa de arquitetura foi dirigida por Manuel  Salgado até 2007, altura em que passou a ser parte da equipa de António Costa.

O "roubo" do espaço público junto ao rio tem sempre a mesma justificação - são edifícios "dignos", de "qualidade", "fazem a diferença". Mas a diferença que de facto fazem é que nos roubam mais um pedaço de margem do rio, de espaço de fruição e de lazer. A displicência com que se faz uso dos espaços e das infra-estruturas de todos é um sinal preocupante do que vai na cabeça de António Costa. Afinal, o homem propõe-se governar Portugal...