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O caso Lochte

Ele não é um nadador idiota, é apenas um idiota que nada rápido

A história parecia ser apenas mais uma da tragédia nacional do Brasil, outra sobre a insegurança endémica no Rio de Janeiro. Ryan Lochte e três outros nadadores norte-americanos teriam sido assaltados no regresso de uma noite de copos, depois de terminadas as competições de natação, nas quais o norte-americano de 32 anos ganhou uma medalha de ouro, na prova de 200 metros estilos.

Lochte contou a história e abandonou o Brasil, regressando prontamente aos Estados Unidos. Para trás ficaram os seus três colegas de noitada, todos mais jovens do que ele. E a investigação ao alegado roubo de que se diziam vítimas. Afinal, tinham regressado à Aldeia Olímpica com os seus relógios e com os telemóveis, o que não é habitual no Rio quando se é assaltado. E não chegaram às 4 da manhã, como contaram, mas antes às seis da manhã e com sinais de embriaguez, como comprovavam as imagens das câmaras de segurança.

Foram estas, mas também as recolhidas numa estação de serviço, que acabariam por desmontar a história. Afinal Lochte e o seu gang estilhaçaram a pontapé os espelhos do WC da bomba de gasolina, partiram a porta da instalação e mijaram contra o muro. É verdade que lhes apontaram uma arma mas esta foi empunhada pelo segurança do espaço, depois dos desacatos.

Enquanto o imbecil Lochte reinterpretava a sua história junto dos media norte-americanos, dois dos seus companheiros de aventuras eram detidos no avião, passaportes confiscados, para esclarecer a justiça brasileira que queria mais informação sobre um crime que afinal não o fora. O bro Lochte descansava em casa das braçadas rápidas na piscina olímpica no Rio de Janeiro, os seus colegas enfrentavam a justiça brasileira. O nadador que vive e treina na Carolina do Norte aproveitou essas horas para tweetar sobre o seu cabelo tingido e para publicar um vídeo sobre uma conversa de chacha com uma colega de modalidade.

Conhecido pelas suas braçadas rápidas e pelo asinino comportamento, Lochte ficou também popular junto do grande público por uma reality show transmitido pelo canal E!. Dele, fica aqui o que de mais positivo se escreveu. “”Não é suficientemente ridículo para dele se gostar nem esperto o suficiente para valer a pena vê-lo”. O nadador também fez um vídeo que ficou conhecido do público. Servia para promover a sua Pool Water e vale a pena vê-lo: mais do que pelo produto anunciado, que ele sugere ter urina (?), pela candura da idiotice.

No Rio, sabemos, a segurança é um problema grave. As autoridades brasileiras prometeram assegurá-la aos atletas e às comitivas e falharam mais do que uma vez, embora os cariocas que não brilham nos estádios tenham muito mais de que se queixar no seu dia-a-dia do que os deuses das olimpíadas. Por isso, a polícia civil do Rio de Janeiro está hipersensível a qualquer alegação de assalto. Talvez até um idiota como Lochte o soubesse e se aproveitasse disso para tentar a redenção de uma noite de copos mal sucedida. É mais ou menos o equivalente a uma atleta na Índia inventar uma história de violação ou na Venezuela simular que se foi raptado – uma triste e também ofensiva asnice.

A alta competição pode ser uma fábrica de caráter. Pode forçar-nos a enfrentar os extremos, físicos e psicológicos, que se colocam aos homens e mulheres. Pode mostrar-nos como se superam esses obstáculos, com determinação, persistência e resiliência. Pode servir de exemplo a outros. Pode ser Nélson Évora. Pode também ser uma fábrica de idiotas que regem a vida pelo ritmo das braçadas. Pode ser Lochte.

A polícia do Rio de Janeiro pediu ao atleta norte-americano, pelo menos, um pedido de desculpa. Talvez não valha o esforço. O melhor que se lhe pode pedir é ser esquecido: que vá esbracejar para a piscina e votar no Trump.