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Whitney e os cardeais

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Quem manda no Vaticano é o cardeal Tarcisio Bertone, o camarlengo, também secretário de Estado e número dois da hierarquia

Victor Ângelo

O Vaticano anda nas bocas do mundo. Como qualquer outro Estado, teria preferido menos atenção, por parte dos media internacionais. Em matéria de imagem, quanto menos se fala de um país ou instituição, melhor é. Com a atenção vem o pente fino.

A imagem da Igreja Católica, que havia sido profundamente abalada pelos escândalos de pedofilia, sai desta última ronda de escrutínio ainda mais afectada. Até a recente elevação à dignidade cardinalícia de 22 prelados, que deveria ter sido um momento de afirmação, não ficou isenta de dúvidas. Primeiro, por se tratar de uma colheita de gente com ideias do passado - a entrevista do cardeal português a um diário nacional ilustrou bem essa verdade. Depois, porque a escolha revela uma visão eurocêntrica, incapaz de responder à emergência de outros centros de influência e de dar voz às populações do Sul. Apenas três novos dignitários, do Brasil, Índia e Hong Kong, provêm do mundo para além da Europa e da América do Norte. Finalmente, por mostrar que quem manda no Vaticano é o cardeal Tarcisio Bertone, o camarlengo, também secretário de Estado e número dois da hierarquia, que promove, antes de mais, os fiéis burocratas da Cúria. Sem contar, claro, com o desinteresse popular por uma cerimónia antiquada: 30 segundos na CNN, no dia em que o funeral de Whitney Houston teve direito a três horas.

Bertone é o homem da gestão da máquina, que o Papa é, antes de mais, um intelectual doutrinário, pouco dado às coisas práticas. Para Bertone, o importante é preparar a sucessão de Bento XVI. O poder, no Vaticano como nos países e nos partidos, é, de facto, a questão central. O cardeal quer ver o pontificado voltar a mãos italianas: está agora mais perto de o conseguir, que o Consistório já tem tantos italianos quanto a América Latina e a Ásia juntas. A base económica da Igreja Católica está na Itália. Estima-se que 20% dos bens imobiliários do país e mais de 100 mil empresas, escolas, clínicas e hospitais, hotéis, agências de viagem, lojas, sejam propriedade da Igreja. Um Papa italiano deverá ter mais peso junto dos políticos de Roma e ser capaz de defender com mais vigor os interesses materiais da instituição. Numa altura de crise financeira, quando os governos tentam tributar tudo o que mexe, compreende-se a preocupação. Mais agora, que Mario Monti acaba de decidir que as isenções fiscais da Igreja vão ser revistas. Até hoje, qualquer prédio ou negócio que tivesse, num canto da casa, para além dos fins lucrativos, uma qualquer actividade que pudesse ser classificada como religiosa, gozava de isenção fiscal. Com a nova lei, terão que pagar impostos. Embora ainda não se tenha uma ideia clara do montante anual, certas previsões apontam para uma receita adicional para o tesouro italiano na ordem dos 600 milhões a 900 milhões de euros.

Uma má notícia nunca vem só. Fugas de informação recentes mostram que existem problemas de favoritismo e de transparência na atribuição de contratos na Santa Sé, bem como um certo mal-estar, intrigas, na Cúria. O mais preocupante é, no entanto, na perspetiva de Bento XVI, o avanço da secularização nas sociedades modernas. A religião e a vida movem-se em círculos distintos, cada vez mais distantes. A influência da fé e da doutrina na política, na sociedade e no comportamento familiar, está a mirrar, a olhos vistos. Perante isto, e o precedente aberto por Monti, o Vaticano tem grandes desafios à sua frente. Está, como outros Estados, numa fase de fragilização.