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A eleição presidencial afegã continua a ocupar o centro das atenções internacionais.  Continua, também, a fazer vítimas. A última foi este vosso colunista. Tinha havido todo um rosário de perdedores, desde o dia do escrutínio, a 20 de Agosto. Vim, em certa medida, juntar-me à lista.

Primeiro, foi o meu amigo Ashraf Gani, candidato preferido da intelectualidade liberal norte-americana. Antigo ministro da finanças, nos primeiros anos do novo regime, fora o arquitecto do plano de reconstrução da economia e o mobilizador da ajuda internacional. Estava convencido,  como muitos de nós, que passámos anos e anos a tentar salvar outros países, que poderia fazer o milagre que o Afeganistão precisa. Os eleitores não viram a sua candidatura da mesma maneira. Teve meia dúzia de votos.

Depois, perdeu o processo eleitoral. Quando a magnitude da fraude se tornou evidente, a credibilidade das eleições foi ao ar. Distritos, onde poucos haviam votado, deram origem a urnas cheias de votos. Nalguns casos, contaram-se mais boletins do que eleitores inscritos. Resultados parciais mostraram que o campo do Presidente Hamid Karzai era, de longe, o principal responsável pelas aberrações.

Por isso, Karzai deve ser incluído na lista dos perdedores. Está, hoje, mais fragilizado que nunca. A compostura e a pose que o caracterizavam, e que lhe davam uma imagem de seriedade e de homem de Estado,  são agora vistas como parte da farsa. A minha experiência diz-me que se trata de um líder muito próximo do prazo de validade. A não ser que consiga reinventar uma outra legitimidade, o que não é de excluir.

A presença das Nações Unidas no Afeganistão também sofreu. Está a ser atingida pela confusão que reina à volta das eleições. O número dois da missão acabou por ser demitido, há dias, pelo Secretário-geral. Tinha, de modo bem claro, posto em causa o trabalho da ONU e do seu chefe directo. Trata-se de uma situação difícil de gerir, que põe em causa a pessoa e integridade do responsável da missão. A situação em que a missão se encontra é complexa. Veremos, no futuro próximo, se o representante da ONU consegue recuperar o prestígio que foi, entretanto, abalado. É fundamental que assim aconteça.

As nações que apoiam a transição afegã, sobretudo os países da NATO e os seus aliados, fazem igualmente parte da lista das vítimas. O investimento político e militar no Afeganistão, bem como os custos financeiros que a comunidade internacional continua a despender, são enormes. As eleições faziam parte da estratégia de estabilização do país. Nas circunstâncias actuais, é legítimo perguntar se o esforço valeu a pena. Convém, mais ainda, questionar a direcção que essa estratégia tem seguido. O fiasco democrático que as eleições tornaram evidente faz pensar duas vezes. O regime actual tem uma base de legitimidade muito frágil. Estabilização, consolidação democrática  e desenvolvimento têm que ser processos simultâneos, complementares e mais inclusivos. Tentar construir o futuro da país a partir de uma pequena elite, que ainda por cima se revelou pouco honesta, leva a novos desastres. 

Os resultados finais da eleição de 20 de Agosto deveriam ter sido anunciados na semana passada. Estava previsto fazê-lo a 7 de Outubro. Mas, à medida que se faziam as últimas verificações, tornou-se impossível fechar o apuramento. Os votos duvidosos ultrapassavam, de longe, os valores estimados anteriormente. Passou a ser moralmente inaceitável  declarar um vencedor. Exigiam, isso sim, uma nova eleição, ou, pelo menos, uma segunda volta. Estava-se, assim, perante uma situação de grande complexidade. Que exige mais tempo, para poder ser analisada e permitir uma decisão final.

O meu texto dessa semana partia do princípio, até então plausível, que Hamid Karzai seria anunciado vencedor. O novelo que é o Afeganistão apanhou-me na embrulhada. Felizmente que o corpo principal do meu artigo era dedicado à estratégia para o futuro. Como na vida de muitos países, há momentos na nossa escrita em que olhar para o futuro é mais seguro que escrever sobre o presente.