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Portugal tem de ultrapassar a sua condição de país adormecido e de viveiro de ideias patéticas

Victor Ângelo

Em 1993, quando visitei a região de Atar, 400 quilómetros a nordeste da capital da Mauritânia, o avanço do deserto do Sara era bastante evidente. Muitos dos palmares de tâmaras já estavam parcialmente cobertos por dunas de areia e perdidos para sempre. Hoceine, um gigante meio mouro meio negro, homem velho e respeitado na zona, disse-me, na altura, enquanto percorria com olhos tristes as palmeiras que restavam - anãs, pois a areia já tinha encoberto uma boa parte do tronco -, "será o que Deus quiser". O fatalismo de então deu lugar, nos últimos anos, a uma atitude de rebelião: os jovens que não migraram para Nouakchott juntaram-se aos grupos armados que operam na fronteira entre o deserto e o Sahel, sob a designação de AQMI, uma versão norte-africana da al-Qaeda.

Recordei este episódio há dias, no quadro do lançamento da Visão Verde deste ano. A expansão dos desertos é, no entanto, apenas uma das várias consequências das alterações climáticas. Noutros pontos do globo, assistiremos a outro tipo de catástrofes ambientais: fenómenos naturais extremos, inundações, grandes tempestades, terras baixas tragadas pelos oceanos e o desaparecimento de uma parte das tundras e do habitat natural que as caracteriza - sem esquecer o gás metano que será libertado quando a cobertura de gelo dessas vastas superfícies desaparecer, gás que tem um efeito de estufa oito vezes superior ao do dióxido de carbono.

A mensagem é clara: as alterações climáticas vão ter um impacto profundo sobre a vida das pessoas, enquanto fatores de empobrecimento, de desestabilização, de conflito e de crises humanitárias. Não serão, porém, os únicos choques estratégicos que teremos de enfrentar nos próximos anos. Basta lembrar o crescimento desequilibrado da população, a acentuação das desigualdades sociais, do desemprego e da fome, as inovações científicas relacionadas com a manipulação genética ou com a produção de armamentos de destruição em massa, a problemática do acesso à água potável e às fontes de energia, bem como a insegurança alimentar, para se ter uma ideia da complexa teia de variáveis que é necessário ter em conta.

 A globalização das economias e do conhecimento tem vantagens. Mas tem como contrapartida a mundialização das ameaças. Um problema que, de início, possa parecer de âmbito local, transforma-se, sem demoras, numa onda de choque internacional. O exemplo da Grécia é elucidativo. O que noutros tempos teria sido, na pior das hipóteses, a bancarrota de um Estado, é hoje um maremoto com vastas repercussões. Por isso, é necessário refletir, de modo muito sério, sobre os desafios que temos à nossa frente. Estamos numa era de grandes mudanças, de enormes incertezas e de profundos abalos. O que parecia certo e adquirido deixou de o ser. Temos de investir mais no pensamento estratégico e na promoção da cooperação entre os povos e no respeito pelas convenções internacionais. O acento tónico deve ser posto na interdependência, não na rivalidade.

Não convém, todavia, ser ingénuo. Cada nação deve estar preparada para o pior e contar, primeiro, com os seus próprios recursos e a sua capacidade de resposta. Incluindo Portugal, que tem de ultrapassar a sua condição de país adormecido e de viveiro de ideias patéticas. Há que voltar a dar atenção à agricultura e ao mar, no quadro da nossa segurança alimentar - somos vulneráveis em termos alimentares, importamos uma boa parte do que comemos - bem como às questões da energia e da água. Se conseguirmos recuperar o fôlego e tratar de nós, estaremos a também contribuir para o bem da humanidade.