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Uns deputados bem aproveitados

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Quem é nomeado ministro ou entra como político em qualquer buraco onde haja recursos, já sabe que tem um certo número de anos para aproveitar. É a sua vez. Se o não faz, a família e os amigos dizem que foi parvo

Hoje, sinto uma dor aguda do lado da democracia representativa. A minha fé nos regimes parlamentares, que já andava pelas ruas da dúvida, foi agora abalada ao nível dos alicerces. Estou a referir-me aos escândalos dos reembolsos feitos a deputados ingleses. Uma série de manigâncias que a imprensa britânica acaba de pôr a descoberto. A lista de nomes e a descrição dos casos fazem pensar que os senhores deputados, como muitos outras personalidades que ocupam posições de autoridade, pensam primeiro em si. Os dinheiros públicos e as vantagens dos cargos estão ali para serem objecto de abusos, como se a função de mando colocasse esses personagens acima da lei. Num mundo em que o luxo é um sinal de poder e de êxito social, deixou de haver limites. Para certos políticos, pelo menos. No aproveitar é que está o ganho.

É um pouco como a situação que tenho observado em certos países em desenvolvimento. Quem é nomeado ministro ou entra como político em qualquer buraco onde haja recursos, já sabe que tem um certo número de anos para aproveitar. É a sua vez. Se o não faz, a família e os amigos dizem que foi parvo.

Os espertos do Parlamento britânico são gente que se fez reembolsar de despesas de todo o tipo, à sombra de umas disposições vagas, que permitiam certos pagamentos. Alguns reembolsos correspondem a montantes elevados e com cheiro a fraude. Outros, são casos ridículos. Como  o ilustre deputado que pediu o reembolso da árvore de Natal e das respectivas luzinhas de decoração. Ou o outro representante do povo que se fez pagar uns assentos de sanita um pouco mais cómodos e com linhas mais estéticas. O próprio Tony Blair pediu um empréstimo de 300.000 libras ao Parlamento, para beneficiar do esquema. Tudo isto e muito mais tem vindo a acontecer na casa-mãe do regime parlamentar democrático, em Westminster. O mais velho parlamento europeu, a referência. Quantas vezes, nas minhas andanças por terras à procura de eleições limpas e de liberdade de expressão, não acabei por utilizar Westminster como um exemplo da democracia?

Esta é mais uma acha para a fogueira. Os eleitores europeus têm vindo a perder o respeito pelos parlamentos dos respectivos países, bem como pelo Europeu. Faz parte do processo de perda de credibilidade dos actores políticos, quer dos que  estão no Governo quer dos que têm a responsabilidade da representação. Ao nível nacional, nos sistemas de eleição de deputados como o nosso, que é bem menos representativo do que o inglês, a assembleia é apenas uma versão camuflada, e adaptada às exigências da diversidade, dos sovietes de má memoria. Enquanto no caso britânico, quem pisar o risco pode estar seguro que não passará nas próximas eleições, porque cada um responde perante um círculo eleitoral bem concreto, nos casos semelhantes ao português as coisas passam-se de modo diferente. Muitos dos deputados são pouco mais do que meros funcionários dos partidos. A disciplina partidária, uma espécie de centralismo democrático dos tempos de Estaline aplicado em versão moderna, conta mais do que a justeza da causa ou a opinião do cidadão. O deputado típico senta-se na assembleia com os olhos postos na direcção do seu partido. Só assim poderá garantir o futuro. Pisar ou não o risco não tem o mesmo sentido que na Grã-Bretanha.

Numa altura em que instituições fundamentais da vida moderna estão a perder credibilidade de um modo nunca visto - é o caso dos bancos, dos governos, dos partidos, dos sistemas de justiça nalguns países, mesmo de certos sectores importantes da comunicação social -, o escândalo de Westminster vem dar mais argumentos aos que dizem que a vida política, em muitas das nossas democracias europeias, precisa de levar uma volta a sério.