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Uma volta rápida pelo mundo

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Só um milagre poderá evitar a cisão do Sudão

Escrever regularmente sobre temas de política internacional é uma maneira de partilhar a minha experiência profissional com os leitores. O meu quotidiano gira à volta dessas questões. Por exemplo, passei o último fim-de-semana a debater, com colegas que gerem alguns dos conflitos mais complexos da actualidade, a situação em diferentes partes do globo. E o papel que as Nações Unidas deve desempenhar. Foi uma oportunidade para dar uma volta ao mundo, sentado numa sala de reuniões, à beira do Lago de Genebra.

Os problemas do Afeganistão e do Iraque fizeram, inevitavelmente, parte da agenda. Sem esquecer as convulsões que se agravam no Paquistão. Há actualmente uma melhor percepção dos perigos que se avolumam nas grandes urbes e nas zonas tribais do Paquistão. Mas quem se lembraria do potencial de conflito que existe na Ásia Central, países que outrora eram parte integral da União Soviética, e que hoje se confrontam por razões de gestão dos recursos aquíferos? E que são cada vez mais vulneráveis ao narcotráfico, à expansão dos fundamentalismos religiosos, sem contar com os problemas étnicos, a falta de democracia e a perda de habitat, por razões de degradação ambiental.

No Médio Oriente, a proliferação de colonatos israelitas em zonas ocupadas, incluindo na parte árabe de Jerusalém, está a inviabilizar a criação de um estado palestiniano. Ou seja, a solução que passaria pelo estabelecimento de dois estados, que vivessem em paz lado a lado, é cada vez mais difícil de ver a luz do dia. Os Estados Unidos e os outros membros do chamado Quarteto não têm mostrado ganas ou capacidade para resolver o impasse. Cada novo dia traz consigo o reforço das posições israelitas e o agravamento das divisões entre os Palestinianos. Sem contar com a radicalização das partes e o empobrecimento, para além da linha do desespero, de muitas famílias de Gaza e do resto da Palestina.

Em África, o futuro do Sudão constitui a maior preocupação da comunidade internacional. País vasto, número um em termos de superfície, com fronteiras com nove outros estados. O referendo sobre a independência do Sul do Sudão vai ter lugar nos primeiros meses de 2011. Nesta fase do processo só um milagre poderá evitar a cisão do país. Tendo em conta o potencial de instabilidade que existe, a questão que se coloca à comunidade internacional é a de saber como ajudar, quer o Sul, quer Cartum, a gerir a situação pós-referendo. Como evitar a implosão, o caos e o sofrimento em larga escala. É um erro pensar que o país pode continuar unido. É uma perda de tempo e de recursos tentar, como o fazem actualmente os Estados Unidos, inverter a tendência para a separação. É demasiado tarde, após tantas décadas de guerra civil, de marginalização e humilhação.

Na América Latina, as grandes questões têm que ver com o aumento exponencial do crime urbano violento. Não é apenas a situação do México ou do Rio de Janeiro. São os vários estados da América Central, com taxas de homicídios que fazem pensar em cenários de guerra civil. A criminalidade organizada e fortemente armada constitui a maior ameaça ao investimento produtivo, ao desenvolvimento e à sobrevivência da democracia, nessa parte do globo. Sem contar com os nacionalismos populistas rasteiros, que trazem consigo riscos de instabilidade regional e de confrontação bélica.

Nesta rápida volta ao mundo, não convém esquecer que a Europa continua com a questão do Kosovo por resolver. É um problema que tem estado silencioso, nos últimos meses, mas que existe e que representa um teste para a política externa da União Europeia. Os estados membros continuam divididos, no que respeita à questão da independência. Por outro lado, as relações com a Sérvia, que precisam de evoluir num sentido construtivo, estão bloqueadas. São questões que nos fazem lembrar que a Europa precisa de definir de uma maneira mais nítida, e mais completa, as suas prioridades externas e a sua política de segurança.

Um pensamento final: A pobre baronesa vai ter muito com que se ocupar.