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Uma União de confusos

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Não conheço quem seja capaz de escutar um chefão de Bruxelas por mais de um minuto

Victor Ângelo

Saí de Bruxelas e refugiei-me, por uns dias, no Sul da França. Trata-se de uma espécie de etapa intermédia, talvez útil para quem se prepara para mergulhar, em breve, na confusão de Lisboa.

Ao acaso das reservas de hotel, acabei por me instalar num local que serve de base a grupos de turistas alemães que, nesta altura do ano, visitam a Provença. Gente sénior. É o turismo dos reformados dos países ricos. Muitos deles terão nascido durante a Segunda Guerra ou logo após. As gerações anteriores à sua também se interessaram pela França, mas por outros motivos. Pensei, então, na relevância da casa comum europeia para a paz entre estados que a História definira como inimigos implacáveis. Só que esta narrativa sobre a paz já não diz nada às gerações jovens. Como a ligação da Europa à consolidação da democracia em Portugal, na Espanha ou na Grécia também deixa indiferente os 40% da juventude espanhola que não têm emprego ou as massas de jovens gregos sem esperança no futuro.

O discurso sobre a Europa não pode continuar assente em argumentos do passado. É fundamental falar do que interessa às novas gerações e de como a UE as prepara para os desafios que terão de enfrentar, num mundo altamente competitivo. Como é igualmente necessário explicar aos que hoje estão no grupo etário dos 40 aos 60 anos em que medida a Europa os protege dos impactos negativos da globalização. Jovens e menos jovens, todos se sentem inseguros numa altura de mudanças políticas e económicas profundas, que estão a ocorrer em diferentes partes do globo. A União tem que servir para reconstruir o sentimento de segurança e para preparar os seus cidadãos para a aceleração da globalização, um fenómeno cada vez mais presente.

A verdade é que a confusão não é propriedade exclusiva dos lisboetas. Também se vivem momentos muito confusos em Bruxelas. Um dos males advém, na minha opinião, da perceção pública: os cidadãos acham Bruxelas confusa porque não a entendem. Quem manda, nos círculos comunitários, quer ser visto como gente instruída nas técnicas da macroeconomia e capaz de dominar a parlenda tecnocrática. Ou seja, os dirigentes perderam a faculdade de comunicar com o cidadão comum. Mais, são entediantes. Não conheço quem seja capaz de escutar um chefão de Bruxelas por mais de um minuto, a não ser que o tenha de fazer por razões de ganha-pão.

Outro problema: a liderança comunitária, quer ao nível da Comissão Europeia quer do lado do Conselho, tem-se deixado marginalizar pelos líderes nacionais. Assistimos, em Bruxelas, a um divórcio entre o poder formal e o efetivo. Não é apenas o facto de Sarkozy não mostrar respeito pela Comissão ou de Merkel se esquecer da sua existência. Nem tão-pouco será por causa de Cameron pensar que fulano de tal é um exótico, que se entretém com ideias bizarras, sem entender as novas circunstâncias.

Sou dos que estão convencidos de que Barroso ou Van Rompuy têm todas as condições para serem mais assertivos. É altura de pensar na História e na marca que vão deixar nas memórias futuras. A crise atual, uma ameaça muito séria, é, para ambos, uma oportunidade única para entrar no quadro de honra da construção europeia. É preciso ser claro e corajoso.

Por fim, os dirigentes dos estados-membros deixaram que a situação na Grécia levasse a confusão para níveis nunca vistos. A cimeira de há dias, ao apostar num novo plano de austeridade que todos sabem que não será levado a cabo, deixou-nos ainda mais perplexos.