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Uma mesquita perto de si

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Um mau político precisa sempre de criar uma boa confusão para poder sobreviver

Nos meus tempos de saltimbanco, quando andava por África, uma das preocupações era a de encontrar casa num sítio que não tivesse uma mesquita ao pé da porta. A motivação não era religiosa, nem tinha qualquer conotação com preconceitos anti-islâmicos. Era uma questão de descanso. Com o chamamento para a primeira oração a ser feito, alto e bom som, por volta das quatro e meia da manhã, e com outras invocações ao longo dia, incluindo à hora da sesta, era fácil explicar a razão. E nunca tive qualquer problema com os líderes religiosos desses países. Nalguns casos, como aconteceu na Serra Leoa e no Chade, as associações de xeques ajudaram-me, sem qualquer hesitação, na resolução de conflitos violentos entre vários grupos armados.

 

Já não será tão fácil compreender o que se passa hoje nos Estados Unidos, à volta da construção de uma mesquita e de um centro comunitário islâmico, na baixa da cidade de Nova Iorque. Com o argumento que o projeto vai nascer na zona do Ground Zero, e que os atentados de 11 de Setembro foram obra de muçulmanos, a direita, os fanáticos, os vistas curtas e certos dirigentes do Partido Republicano conseguiram transformar o assunto num problema político nacional. Com a aproximação das eleições de Novembro, com 37 lugares no Senado em disputa e a Câmara dos Representantes a votos, a oposição ao projeto é vista como uma maneira expedita de atacar o Presidente Obama e os Democratas. De um lado estariam os verdadeiros patriotas, gente que respeita os bombeiros, os polícias e os que foram vítimas dos atentados. Do outro, uns meias-tintas com ideias vagamente modernistas, de patriotismo duvidoso, mais inclinados a ouvir o mundo exterior do que os bons cidadãos do Alasca ou do Arizona. Com esta simplicidade se pinta um quadro político, com os bons de um lado e os maus, do outro.

 

O aproveitamento político de um projeto discreto - a mesquita não terá nenhum sinal exterior de caráter religioso, nenhum minarete que a identifique - é paradigmático. Usa-se e abusa-se da ignorância de muitos cidadãos, dos preconceitos contra o Islão, dos sentimentos de exclusão em relação ao que é diferente, para dar espaço e protagonismo aos que ainda não aceitaram a eleição de um afro-americano como presidente. E que têm também muita dificuldade em acolher a reforma do sistema de saúde - não só por motivos ideológicos mas igualmente pelo impacto que o novo sistema vai ter nos lucros das seguradoras e de outras empresas com interesses no setor. Sem contar com os que não conseguem imaginar que os EUA possam ter um presidente que diz a Israel o que Obama tem dito - embora o diga com moderação e equilíbrio, que o peso dos lóbis judeus não pode ser totalmente ignorado por um político que gostaria de ser re-eleito.

 

Curiosamente, entre o Ground Zero e o edifício em causa existem dois dos mais conhecidos clubes de cavalheiros da baixa da cidade. São estabelecimentos de striptease e de outras práticas, que terão muito pouco de patriótico e, ainda menos, de religioso. Mas para os expoentes mais aguerridos do Partido Republicano, como Sarah Palin e Newt Gingrich, isso não é politicamente relevante. O que pode dar votos é o apelo aos medos primários das pessoas mal informadas. Mesmo num país que foi fundado com base no respeito pela liberdade religiosa de cada indivíduo. A moral da história é, mais uma vez, que um mau político precisa sempre de criar uma boa confusão para poder sobreviver.