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Um mundo muito ocupado

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Os grandes da finança, dos media, e, claro, os iluminados políticos que nos dirigem, gostam de se reunir no calor dos salões de Davos e de trocar ideias sobre a salvação do mundo

A agenda internacional, esta semana, está bem preenchida. Temos uma conferência de alto nível em Londres sobre o Afeganistão, seguida de uma discussão sobre o terrorismo internacional. Mais a cimeira anual da União Africana, na capital etíope. A reunião de Davos, nos Alpes suíços. Sem esquecer o drama do Haiti, que permanece no topo das preocupações internacionais. O sofrimento humano, os desafios da coordenação humanitária e a interpelação, cada vez mais premente, relativa ao que fazer, para passar do caos à reconstrução e ao desenvolvimento, tudo isso está na ordem do dia.

Londres vai ter como linha mestra a necessidade de reforçar a legitimidade do Presidente Karzai. Não há, neste momento, outra alternativa. Esse reforço requer que se combinem vários ingredientes: o aumento dos efectivos do ISAF, a missão militar internacional, o aprofundamento da capacidade das forças de defesa e de segurança afegãs e a adopção de um plano que promova a desmobilização dos insurgentes e a sua reintegração. É também necessário combater a corrupção, descentralizar a administração do Estado, um assunto que continua a não merecer a atenção que seria de esperar, e definir melhor a contribuição da ajuda ao desenvolvimento, na estratégia global de luta contra a insurreição. Ao nível das Nações Unidas, a substituição do actual representante especial para o Afeganistão é uma questão actual. A mudança de liderança abre uma oportunidade de renovação. A ONU precisa de definir com clareza o papel que deve desempenhar nesta fase do processo afegão. Esse papel tem muito que ver com o imperativo de procurar manter a acção da comunidade internacional dentro do quadro de coerência aprovado em Londres.

A União Africana, reunida na mesma altura, vai discutir o tema das comunicações e da expansão informática no Continente. A verdade é que este sector tem evoluído muito rapidamente em África, graças ao investimento privado. Ainda esta semana consegui receber um SMS, em pleno deserto do Sahara. Mo Ibrahim, o bilionário sudanês que estabeleceu, nos primeiros anos deste milénio, a maior rede de telemóveis em África, e que teve a astúcia de considerar as chamadas feitas entre países africanos como sendo locais, fez obra que os governos, reunidos ou não em cimeira, nunca conseguirão igualar. Mas os políticos, africanos ou doutros sítios, gostam que acreditemos que são eles que promovem estas transformações. Addis Abéba vai, na verdade, estar mais preocupada com a situação interna no Níger, na Nigéria, na Guiné e no Sudão, do que com telefones e computadores. As crises nesses quatro países, em especial, a evolução possível do Sudão nos próximos doze meses, são elas que concentram as atenções internacionais.

Davos volta a reunir em finais de Janeiro a fina flor do mundo dos negócios, da política, da beneficência e do pensamento social. O foco deste ano é tão ambicioso que até parece ridículo:  "Melhorar o Estado do Mundo: Repensar, Redesenhar e Reconstruir". Pessoas simples, como nós, ficariam sem saber o que dizer, perante um desafio dessa amplitude. Mas os grandes da finança, do comércio internacional, dos meios de comunicação social, e, claro, os iluminados políticos que nos dirigem, gostam de se reunir no calor dos salões de Davos e de trocar ideias sobre a salvação do mundo. No fundo, a agenda deste ano mostra que duas questões fundamentais continuam sem resposta. Primeiro, que modelo económico alternativo poderá ser viável, no futuro? Não há inteligibilidade sobre os contornos da economia possível. Em seguida, como resolver a crise de valores éticos, quando o enriquecimento individual é a única bitola utilizada para medir o sucesso na vida?