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Terror num país modelo

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Os "lobos solitários" como "Anders Breivik", são os mais difíceis de identificar e neutralizar

Victor Ângelo

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A Noruega habituou-se a aparecer nas notícias pelas melhores razões. No topo da tabela da ONU, em termos de desenvolvimento humano, o país é considerado uma sociedade de bem-estar, justa, segura e tolerante, com uma classe política moderada, próxima dos cidadãos. É um parceiro internacional generoso, muito presente, em várias partes do mundo, na resolução de conflitos, e número um, na contribuição per capita para a cooperação e a ajuda humanitária. Para mais, tem sabido conjugar, com grande habilidade diplomática, um alinhamento discreto, mas efectivo, com os Estados Unidos e a NATO, com um relacionamento construtivo com a vizinha Rússia.

Por tudo isto, e bem escorados pela riqueza proveniente do petróleo, os noruegueses passaram a acreditar que viviam num país modelo. Desenvolveu-se assim um sentimento patriótico muito forte, numa sociedade que sempre fora, do ponto de vista étnico, muito homogénea. A homogeneidade tem sido posta à prova, com a chegada, na última dezena de anos, de vários contingentes de refugiados, vindos sobretudo da Somália, do Iraque e do Afeganistão e de trabalhadores emigrantes, alguns provenientes da Suécia, mas muitos da Polónia e de outros cantos da UE. A paisagem humana de Oslo, e de outras cidades, mudou. A uniformidade dos olhos azuis e das cabeleiras claras desapareceu e levou consigo a homogeneidade cultural. Mas, quando o dinheiro chega e sobra para todos, e a tolerância é um valor promovido pelas elites, a aceitação do outro é mais fácil.

Apenas um número insignificante de cidadãos considera a diversidade cultural uma ameaça. Sobretudo, se uma parte significativa dos que são estranhos mostra sinais exteriores associados à fé islâmica. É a franja dos ultranacionalistas, num país de nacionalistas. Foi dessa fatia que saiu o indivíduo inculpado pelos horríveis atentados de há dias. Trata-se, como é óbvio, de um caso extremo. Mas a verdade é que, em sociedades estáveis e avançadas, como é o caso, a maior ameaça terrorista provém de autores isolados, os chamados "lobos solitários", gente que se radicalizou, na solidão do seu desequilíbrio pessoal. São os mais difíceis de identificar e neutralizar. Os serviços de segurança estão treinados para monitorizar os grupos radicais. Têm, cada vez mais, de se preparar para descobrir, no ovo, o tresloucado com tendências violentas. O seguimento apurado das redes sociais, dos radicalismos e das associações esotéricas é um passo indispensável, na prevenção destas tragédias.

Quero ainda acrescentar quatro notas breves, para além de exprimir um sentimento de simpatia para com o povo da Noruega. Primeiro, os comentários iniciais sobre a explosão de Oslo, quando ainda não se sabia da tragédia na ilha de Utoeya, focaram-se todos no fundamentalismo islâmico. Um erro, que revelou bem os preconceitos em que navegamos. Segundo, todos os meus amigos noruegueses reagiram da mesma maneira: o autor é um loiro dos nossos; se tivesse sido um estrangeiro, um muçulmano, a extrema-direita teria ganho um espaço político sem precedentes. Terceiro, numa pausa entre parágrafos, ao escrever este texto, fui à varanda e vi dezenas de carros estacionados sem controlo, junto às paredes do Ministério da Defesa, no Restelo; pensei, não foi desta que aprendemos com a tragédia dos outros. Finalmente, o que agora aconteceu reforça uma posição que sempre defendi: quem pertence a organizações secretas e bizarras, o leitor sabe do que falo, não deve poder trabalhar na área das informações de segurança.