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Para assegurar alguns rendimentos, as populações viram-se para o gado bovino, multiplicam os ovinos e os caprinos. É o reino da pele e osso

Passei a semana a viajar na África Central. De Brazzaville a Guéréda, no Leste do Chade, às portas das rebeliões. De Bangui a Birao, na fronteira com o Sudão. Não consegui ir a El-Fasher, no coração do Darfur, porque Cartum não me autorizou. 

Falei com gente do poder e também com pessoas simples. Em Guéréda, uma das cidades mais perigosas da região, os homens vieram ao meu encontro, mas não deixaram sair as mulheres. Mesmo as raparigas tiveram de ficar em casa. Ou partir à busca de água, tarefa de mulheres e uma preocupação de todos os dias, nestas terras áridas. Em Birao, que está bem mais ao Sul, muito para além da secura dos campos do Norte, a floresta não tem fim. Uma vasta planície de verdes e medos. Fantasmas e bandidos. As populações vivem fechadas no interior dos seus grupos étnicos, receosas, numa luta constante pela sobrevivência. A água, numa zona onde chove sem parar durante três meses, é igualmente a grande preocupação das famílias. É verdade que no passado, não há muito tempo, a estação das chuvas era mais longa. Começava em Maio e ia até fins de Novembro.

Também noutras épocas, que estão ainda nas memórias dos vivos, os rios que vinham do Sul, em direcção ao lago Chade, tinham um caudal abundante. Os bancos de areia só se tornavam visíveis no fim da estação seca. Agora é diferente. O caudal começa a diminuir três meses após as chuvas e vai definhando ao longo dos seis seguintes. Mas não é apenas porque a estação das chuvas encurtou. Há também uma maior pressão demográfica ao longo do rio. Os números duplicaram nos últimos 20 anos. Mais gente e com meios que outrora não estavam disponíveis: motores, bombas para puxar a água, que a irrigação não se faz apenas com regadores de alumínio. 

A demografia é um factor frequentemente ignorado. Mesmo os pobres têm actualmente utensílios mais sofisticados. A pressão sobre os recursos naturais é maior do que a exercida pela geração precedente. Não é apenas a bomba de água. É também o acesso à serra mecânica, para cortar árvores a um outro ritmo. À kalashnikov, que serve para destruir a fauna. 

É evidente que a pobreza que caracteriza a região coloca estes cidadãos muito abaixo dos americanos ou dos europeus, em termos de consumo de recursos naturais e de emissões de dióxido de carbono. Mas com o desenvolvimento que se anuncia e uma demografia que irá continuar em expansão rápida nas próximas décadas, não convém fechar os olhos. 

Com as mudanças climáticas, a agricultura tem vindo a ser ultrapassada pela pecuária. Para assegurar alguns rendimentos, as populações viram-se para o gado bovino, multiplicam os ovinos e os caprinos. Os rebanhos são numerosos e de má qualidade. É o reino da pele e osso. Com menos pluviometria, mais população e mais pastorícia, a transformação do ambiente faz-se a um ritmo acelerado. A prazo, surgirão novos conflitos, à volta dos poços, das pastagens, da destruição das culturas, além das fragilidades económicas, com a paz civil a depender de um ano mais seco ou mais molhado. Os conflitos entre as comunidades arrastarão a região, como já acontece no Darfur, para confrontos militares e políticos. 

A Conferência de Copenhaga sobre as alterações climáticas passa-se longe de África. Distante da pobreza, dos que acordam cada manhã sem saber muito bem como irão chegar ao fim do dia. É uma conferência fundamental para o futuro da humanidade. Mas, como as tribos no centro das minhas viagens, cada país vê a conferência na perspectiva dos seus interesses imediatos. Quando se trata do bem de todos, é muito difícil chegar a um consenso. Mais. Quem consegue pensar em termos do longo prazo, quando as dificuldades do quotidiano nos batem insistentemente à porta?