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Reentradas amargas

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Que impacto terá, em termos de autoridade, a eleição de Barroso feita na base do toma lá, dá cá?

Setembro vai ser um mês difícil, em Bruxelas. Iremos assistir a muitos amargos de boca, ouvir frases assassinas, pressentir que estarão a decorrer combinações e arranjinhos, fora do escrutínio da opinião pública. Também é verdade que os cidadãos europeus estarão preocupados com outras coisas, sobretudo com os níveis do desemprego, que vão certamente continuar a subir. E distraídos, na Alemanha, em Portugal e na República Checa, pelas disputas à volta de eleições legislativas. A Irlanda estará no rubro da campanha para o referendo sobre o Tratado de Lisboa. A votação será a 2 de Outubro.

A questão da presidência da Comissão ocupará o topo da agenda pós-férias. Os chefes de Governo, e Durão Barroso, gostariam que o assunto ficasse resolvido em Setembro. Com a aprovação da recomendação, por maioria simples, no Parlamento Europeu. Não vai ser fácil.

Martin Schulz, o líder do grupo socialista, e Daniel Cohn-Bendit,  por parte dos Verdes, transformaram a oposição à recondução de Barroso numa espécie de estandarte de guerra. Estas duas famílias políticas, que estão também em competição entre si, perderam apoio nas eleições europeias de Junho. O vazio de ideias com que foram para o escrutínio continua. Por isso, agarram-se, desesperadamente, à campanha contra a reeleição do actual presidente da Comissão. É a causa que lhes faltava. Mas também a tábua da deriva, uma bóia do momento, para quem não consegue apresentar uma estratégia coerente, neste período de crise estrutural. Uma situação patética.

A eles, juntou-se agora um homem de peso, e competente, com grandes ambições europeias: Guy Verhofstadt. Foi primeiro-ministro da Bélgica, entre 1998 e 2008. É amigo pessoal de Nicolas Sarkozy, entre outros. Dirige o grupo liberal, no Parlamento Europeu. Caso seja necessário, quer ser, mais cedo ou mais tarde, o nome que permita resolver o impasse. Tem ainda a vantagem de vir de um país pequeno, mas historicamente ligado ao projecto europeu. A que se acrescenta o facto de pertencer a uma cultura que pisca o olho ao mundo germânico, à Europa do Norte e, ao mesmo tempo, é vizinha da francesa. 

O argumento que milita contra uma decisão em Setembro precisa de ser levado a sério. Martin Schulz  e muitos outros afirmam que não faz sentido eleger o presidente com base num quadro antigo, quando o Tratado de Lisboa está prestes a ser aprovado. Os novos comissários vão ser escolhidos nos termos do novo tratado. Por que razão se deve dar um tratamento diferente à questão da presidência? Qual é a pressa, senão a de fazer passar um candidato que parece não poder contar com uma maioria qualificada? Para eles, Outubro, depois do referendo irlandês, é uma altura mais justificada.

Insistir numa resolução do caso Barroso em Setembro exigirá uma  diplomacia experiente, muitas negociações. Obter-se-á o voto, mas à custa de concessões de peso aos grupos parlamentares socialista, verde ou liberal. Será que o primeiro-ministro sueco, que é quem deverá liderar o processo, estará disposto a fazer esse investimento político?  E que impacto terá, em termos de autoridade, uma eleição feita na base do toma lá, dá cá? A Comissão precisa de um presidente com legitimidade plena. Com grande espaço de manobra política.

Esta matéria também deve ser vista tendo em conta o preenchimento dos outros lugares de topo, que serão criados, logo que o Tratado de Lisboa entre em vigor. Vai ser necessário encontrar equilíbrios políticos e regionais, para que o tripé Comissão, Conselho e Política Externa possa dar sustentação à visão que une os cidadãos da Europa.