Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Primaveras instáveis

Horizontes

  • 333

Os Salafistas precisam de ser contidos

Victor Ângelo

O Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, com sede em Lisboa, funciona como uma janela que se abre aos povos vizinhos do nosso Continente. É uma estrutura ligeira, com um orçamento modesto. Ainda assim, oferece aos europeus a possibilidade de sair além-fronteiras e estabelecer uma plataforma de diálogo com os países da margem sul do Mediterrâneo e outros, sobretudo em matérias de direitos humanos, cidadania e juventude.

O Centro acaba de organizar um encontro internacional sobre os desafios das Primaveras Árabes, dois anos após o início da primeira revolta, a da Tunísia. Foi uma oportunidade valiosa para ouvir ativistas e representantes dos governos de um vasto arco geopolítico, de Marrocos à Jordânia e ao Líbano. A parte árabe esteve bem representada. O mesmo não se poderá dizer quanto ao lado europeu. É verdade que a Europa sente que perdeu influência e que não consegue definir uma estratégia clara em relação às transformações políticas e sociais que estão a decorrer no Norte de África e no Médio Oriente. Nem mesmo no que respeita à Tunísia ou a Marrocos, que são os casos menos complexos. Não pode, contudo, adotar uma posição de mero espectador. Como também não deve pensar que a solução passa apenas pelo aumento dos fundos destinados à cooperação com esses estados. A Europa precisa de manter, com todos os estados da região, um diálogo político equilibrado, franco e baseado em princípios universais.

A minha experiência diz-me que um engajamento desse tipo seria tido em conta. Os novos líderes poderão ser muito conservadores em termos do peso da religião na definição das políticas internas. Compreendem, no entanto, que a sua reputação internacional passa pelo respeito pelas convenções adotadas no quadro das Nações Unidas. Este é o ponto de entrada, que tem que ver com uma insistência sem ambiguidades numa transformação democrática que proteja os direitos das minorias, promova a igualdade entre os homens e as mulheres e assegure a liberdade de participação da sociedade civil nas diferentes facetas da vida pública. De facto, durante a reunião ficou patente que, na fase atual, são as minorias religiosas, as mulheres e os ativistas seculares que se sentem mais ameaçados. A adoção de constituições inclusivas, a independência da justiça, a reforma das polícias e das forças armadas, a luta contra a corrupção e a criação de condições que promovam o investimento económico e o emprego são assuntos que devem igualmente fazer parte do debate Norte-Sul.

Há uma outra preocupação que deve ser incluída na agenda: a ameaça terrorista. Quem observa estas coisas, na Europa, pensa que a abertura política resultante das Primaveras está a dar um campo de manobra aos radicais islamitas que é inquietante. Os chamados Salafistas, que seguem uma interpretação literal e purista do Corão, precisam de ser contidos. No seu seio existem células que advogam a violência, quer interna quer contra o que confusamente denominam de Ocidente. Tem que ficar dito, no Cairo, em Tunes, e noutras capitais, com firmeza, que o mundo de hoje não aceita esse tipo de extremismo.

Para muitos, passados dois anos, a questão é a de saber se se deve ser otimista ou pessimista em relação ao futuro das revoluções árabes. A resposta que coloca a ênfase no pessimismo é a mais tentadora. Os desafios e os conflitos possíveis são tremendos. A melhor atitude consiste, todavia, em mantermo-nos atentos e contribuir, cada um dentro das suas possibilidades e com coragem, para que as Primaveras permitam chegar à democracia.