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Preocupações, desabafos e recados

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Numa região em que os riscos para quem não anda com protecção são enormes, tomar a decisão de enviar agentes humanitários sem escolta é uma grande responsabilidade

Como passo uma parte do meu dia a lidar com organizações não-governamentais, num contexto de insegurança generalizada e de má governação institucionalizada, preciso de ter alguma paciência e abertura de espírito. Tudo isto deve ser acompanhado por um diálogo constante, que, sem conversa, não há entendimento. Três virtudes difíceis, mas a idade ajuda a ser-se mais sereno. E com umas décadas aos trambolhões nestas matérias ganha-se uma couraça mais espessa, como os crocodilos sagrados do deserto. Mas, de vez em quando, um desabafo, que é o que a crónica vai ser, faz bem.

A criminalidade violenta na zona do Sahel, os ataques de homens armados contra os agentes humanitários, os extremismos, as incompreensões religiosas e culturais, os conflitos entre comunidades, as violações dos direitos humanos, as rebeliões, fazem parte do nosso quotidiano. Sobretudo nas zonas de fronteira e, em particular, no Leste do Chade, no Darfur e no Norte do Niger. Juntou-se agora a este leque de crimes e dificuldades o rapto de estrangeiros. Na semana passada, foi a vez de um agrónomo do Comité Internacional da Cruz Vermelha, feito refém nas terras da incerteza que são as zonas entre o Chade e o Darfur.  

Estas são, fora do Afeganistão e do Iraque, as áreas de maior perigo para os trabalhadores humanitários e os agentes das Nações Unidas. No caso dos funcionários da ONU, consegui impor a regra que obriga que todas as deslocações no terreno se façam com escoltas armadas. Com gente da nossa polícia ou com capacetes azuis. Mas algumas ONGs não vêem com bons olhos este tipo de obrigação. Acham que perdem a sua imparcialidade e neutralidade, se forem acompanhadas por forças das Nações Unidas.

Numa região em que os riscos para quem não anda com protecção são enormes, com uma probabilidade quase absoluta de haver ataques, tomar a decisão de enviar agentes sem escolta é uma grande responsabilidade. É isso que digo às ONGs que o fazem. Há que saber assumir as suas responsabilidades. Aqui, não há espaço para fugir com o rabo à seringa.

Muitas das agências humanitárias estão, neste momento, convencidas de que mais vale andarem bem guardadas pelas missões de paz do que serem confrontadas com perigos de consequências graves. E, assim, podem continuar o seu trabalho junto das populações vulneráveis.

Mas algumas organizações adoptam uma posição mais fundamentalista. Preferem retirar-se das paragens, deixar milhares de famílias sem assistência. Tudo por uma questão de princípios, que, na minha opinião, são mal compreendidos. Quem pode colocar a questão em termos de neutralidade, independência e imparcialidade, quando as partes são tão distintas? Temos, de um lado, forças da ONU, com mandatos específicos do Conselho de Segurança, destinadas a proteger gentes em perigo, e, do outro, grupos de homens armados, fora-de-lei e do mundo de agora, à espera, em cada leito de rio seco, da próxima vítima. Sobretudo se a vítima for um ocidental, com um todo-o-terreno, um telefone satélite e uma nacionalidade daquelas que pagam recompensas. Sim. Há governos da UE que são conhecidos nestas areias quentes, onde a esperança seca todos os dias, por pagarem pela libertação dos seus nacionais feitos reféns. Esta é a melhor maneira de alimentar a indústria do rapto.

Esses governos poderiam utilizar melhor o seu tempo e os seus recursos, se se ocupassem a fazer ver às suas agências humanitárias que um capacete azul não é a mesma coisa que um bandido armado, emboscado nas dunas do sofrimento em que vivem milhões de sahelianos. E se tivessem em conta que a região, às portas da Europa, apresenta riscos de "somalização" e de se transformar num viveiro de tresloucados com bombas.