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Não tenhamos ilusões nem sejamos ingénuos. À partida, os membros permanentes do Conselho de Segurança vão olhar para Portugal com desapreço

<#comment comment="[if gte mso 9]> Normal 0 false false false MicrosoftInternetExplorer4 <#comment comment="[if gte mso 9]> <#comment comment="[if gte mso 10]> Com o abrir do novo ano, Portugal vai ocupar um assento no Conselho de Segurança da ONU. Não é demais repetir que a eleição do nosso país constituiu um importante sucesso diplomático. Não se pense que se tratou de uma vitória fácil. Foi preciso uma estratégia bem pensada e trabalho afincado. Muito mérito coube a Luís Amado, o pivô da campanha.

O combate valeu a pena. A projeção de Portugal no mundo traz dividendos de vários tipos, incluindo de natureza económica. A imagem de um país faz parte do seu património nacional. É verdade que estamos a viver uma crise profunda. Que os meios são escassos. Estar dois anos no Conselho implica, de facto, mais despesas, quer em Lisboa quer com a nossa Embaixada, em Nova Iorque. Mas, nos períodos difíceis, a solução não é fecharmo-nos no casulo. Antes pelo contrário. O reforço das relações com outros Estados é uma das vias essenciais para ultrapassar a crise.

O Conselho tem, em 2011, uma das suas combinações mais fortes. É uma composição com vários pesos-pesados. A África do Sul, a Alemanha, o Brasil, a Índia e a Nigéria farão parte. Trata-se de países com relevância nas relações internacionais. Portugal terá de mostrar que também pode ser incluído nesse grupo. Não tenhamos ilusões nem sejamos ingénuos. À partida, os membros permanentes vão olhar para Portugal com desapreço. Tive oportunidade de ver esse tipo de arrogância, no passado. Os grandes vão, de uma penada, colocar-nos na mesma categoria, ligeira, em que veem a Bósnia, a Colômbia, o Gabão e o Líbano, que são os restantes membros do Conselho, em 2011. Deste modo, o nosso primeiro grande desafio é o de mostrar que vamos para esta função bem preparados e com empenho. Aqui, não há espaço para improvisações.

Ainda bem que o Conselho vai estar, em 2011, mais alinhado com a realidade do poder internacional. Prevejo um ano de grande complexidade. Num fundo de incerteza económica, as rivalidades entre Estados influentes pesarão mais do que a cooperação internacional. Ao nível da ONU, isto traduzir-se-á em divisões e desencontros. Portugal, se souber jogar de modo imparcial e esclarecido, poderá desempenhar um papel de ligação, na procura contínua de consensos e de equilíbrios. Teremos de ter presente que o contexto internacional será definido por cinco vetores principais. Primeiro, os EUA estarão debilitados, por razões de política interna e por motivo das revelações do Wikileaks. Segundo, a China será mais assertiva na defesa do que considera serem os seus interesses estratégicos. Terceiro, a Rússia reforçará as suas posições nacionalistas, combinando cooperação com um incremento da confrontação diplomática. Quarto, a União Europeia verá a sua crise económica transformar-se numa crise política. As posições nacionais dos Estados mais poderosos contarão mais do que o projeto comum. Por último, os focos de tensão habituais, Médio Oriente, Sudão, Congo, Coreias, Afeganistão e Paquistão, apresentam todos os sintomas de agravamento, em 2011.

Em fim de página, queria referir que Portugal vai ter a responsabilidade do acompanhamento dos tribunais internacionais e a liderança do regime de sanções aplicáveis à Coreia do Norte. Não eram as áreas em que tínhamos mais interesse, que a nossa atenção está focalizada nas questões de transparência do funcionamento e na reforma do Conselho. Mas assim foi decidido pelos membros permanentes. Teremos de responder ao que nos é pedido, e, ao mesmo tempo, marcar bem a imagem de um Portugal que sabe construir entendimentos entre interesses diversos.