Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Portugal, a Paz e o Mundo

Horizontes

O reforço da nossa presença política no mundo passa por um maior envolvimento nas missões de manutenção de paz

Nas últimas duas décadas cerca de 30 mil portugueses, provenientes das forças armadas e de segurança, e uma pequena percentagem de civis, participaram em operações internacionais de segurança e paz. Dos Balcãs a Timor-Leste, passando pelo Líbano, o Afeganistão, o Chade, a República Democrática do Congo e por outros teatros de guerra e de conflito, servindo como capacetes azuis, no quadro das Nações Unidas ou em missões da NATO e da UE. 

Tive oportunidade de trabalhar diretamente com alguns deles, de observar e de conhecer o desempenho de muitos. Posso dizer que temos razões para nos sentirmos orgulhosos. Esses homens e mulheres serviram o nome do nosso país com elevação, profissionalismo e dedicação. Souberam adaptar-se a situações de grande perigo e complexidade, manter relações cordiais com outras forças, e conviver com populações e circunstâncias locais bem diferentes das que prevalecem na nossa terra. Deram credibilidade internacional a Portugal. Poderia mesmo acrescentar que esses militares, polícias e guardas republicanos contribuíram mais para a nossa política externa que muitas das embaixadas que temos, perdidas e sem meios, por esse mundo fora. 

O reforço da nossa presença política no mundo passa por um maior envolvimento nas missões de manutenção de paz. Mas não é apenas um questão de números, de quantos elementos destacamos para este ou aquele foco de tensão. É preciso uma estratégia abrangente, um conjunto de princípios que definam os parâmetros das nossas intervenções, incluindo os apoios políticos e institucionais. Deve ser formulada pelos ministérios de tutela - Negócios Estrangeiros, Defesa e Administração. E incluir o das Finanças. 

A estratégia permitirá, ainda, às estruturas de chefia das forças militares e de polícia entender que os compromissos externos das suas instituições são importantes. E que cabe às chefias criar as condições que permitam uma presença eficaz além-fronteiras. Isto é sobretudo verdade no que respeita à PSP. A direção da polícia precisa de receber um sinal forte, para que a corporação dê mais atenção à preparação para as missões de paz. 

Ainda existe, ao nível dos comandos, uma certa incompreensão quanto à participação de elementos seus em forças internacionais. Recentemente, um dos profissionais de polícia que tiveram um comportamento exemplar num quadro multinacional, partilhou comigo uma deceção, que é geral. No regresso, ao apresentar-se à sua unidade, ninguém quis saber como tinha decorrido o seu trabalho, o que aprendera com os outros, que informações de inteligência havia adquirido. Voltou, como se regressasse de umas férias num sítio exótico. A única pergunta que lhe fizeram foi muito rasteira: quanto tinha poupado. 

Vem tudo isto a propósito do lançamento em livro, esta semana, de uma série de estudos patrocinados pela Fundação Mário Soares. A obra - Portugal e as Operações de Paz. Uma Visão Multidimensional - faz o balanço da nossa contribuição para as missões de paz e segurança, nos últimos 20 anos. Gostei de fazer a apresentação do livro. Primeiro, por se tratar de um trabalho exaustivo sobre o que tem sido o papel internacional do Exército, da Marinha, da Força Aérea, da PSP e da GNR. Depois, por levantar um certo número de questões sobre o direito internacional, os media e a opinião pública. Em terceiro lugar, por não se esquecer das ONG nacionais. E, acima de tudo, por mostrar, de novo, que Portugal só é grande se pensar em termos universais.