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Pobre, obrigado!

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O pobre é um ser que se quer invisível. Quando se vê, faz medo

Victor Ângelo

No final dos anos cinquenta, vivia na Rua do Menino Jesus, em Évora, o menino Rogério. Nascera no mesmo ano que eu. Apenas umas ruas estreitas nos separavam. Mas a grande diferença era de ordem social. Ele era filho de gente rica. Ia, de vez em quando a sua casa, um sem-fim de salas e corredores, pela mão da minha mãe. Cada visita era uma oportunidade para o menino Rogério me dar uns encontrões, uns tabefes e uns pontapés. Penso que, às vezes, também me cuspia. Mas eu tinha aprendido a lição, que a mãe me repetia antes de cada visita: não reagir, fingir que não tinha importância, não partir a loiça, que o fundamental era continuar a receber a roupa e os brinquedos que o menino Rogério já não queria. Penso que a minha preocupação com uma definição clara dos interesses estratégicos que estão em jogo, que adquiri mais tarde na vida, vem dessa época. Não deixar que o acessório nos estrague o fim a atingir.

Também vem desses tempos a percepção clara de que a pobreza é uma humilhação. Tenho passado a minha vida, por razões profissionais, a percorrer os atalhos da pobreza. Urbana, a pior, e a rural. Vi de tudo um pouco, por toda a parte. Gente sem recursos para uma refeição diária. A fome é uma das características mais presentes. Vive-se constantemente com a barriga a apertar o juízo. Crianças em bandos nas ruas sujas das capitais mais violentas do mundo. A morte a entrar na palhota ou barraco, para levar uma alma que não conseguiu encontrar os tostões de que precisaria para comprar o medicamento receitado pelo centro de saúde. Todos partilhavam um traço comum: não contavam como gente. Os ricos e poderosos, os homens políticos e os diplomatas vindos de terras estranhas, os universitários e intelectuais, os que podem e mandam têm muitas dificuldades quando se trata de enxergar a miséria. Há uma cegueira social. O pobre é um ser invisível, na grande maioria das sociedades. Ou que se quer invisível. Quando se vê, faz medo.

Vem também da Rua do Menino Jesus o sentimento de injustiça social. Não porque se tenha inveja de quem come o lombo e vive no luxo. Ou de quem habita a casa grande. Simplesmente, porque passar a vida a roer o osso do desespero e a vegetar na pocilga do beco sem saída não são coisas que se possam aceitar. Não deveriam fazer parte da condição humana, no século XXI. Há meios, falta a vontade política. Há decisões, falta a implementação. Como me disse uma vez uma mulher, numa aldeia da África Austral, dir-se-ia que Deus é injusto.

Em termos mundiais, a pobreza continua a ser um fenómeno generalizado. Sem falar, claro, na situação portuguesa. Neste sentido, estou convencido de que a luta contra a pobreza deve ser uma prioridade absoluta na cooperação entre os países desenvolvidos e os mais atrasados. A verdade é que a ajuda ao desenvolvimento tem estado a perder foco. E a concentrar-se nas prioridades erradas, muitas vezes a nível do microprojecto ou do estabelecimento de betão, que, de seguida, fica vazio. Não dá suficiente atenção à expansão das capacidades individuais. À formação e à educação. Às pessoas. Ora, está demonstrado que a educação, sobretudo a das raparigas, é a melhor via para que as famílias progridam socialmente. A cooperação saiu das páginas dos jornais e do radar social das elites. Com o prosseguimento da crise económica internacional, encontra mais e mais opositores. Os Objectivos do Desenvolvimento do Milénio, aprovados pelos dirigentes do mundo há nove anos, estão agora no congelador das grandes ideias. Quando a questão do desenvolvimento aparece nas agendas internacionais, como aconteceu na última reunião do G20, em Londres, é uma matéria de rodapé. Um bocado como o supersticioso que faz o sinal da cruz, sem saber bem porquê.