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No G-8, os compromissos são assumidos com a certeza de que não são para cumprir

Agora que os varredores terminaram a limpeza do local e que L' Aquila voltou aos seus tremores habituais, convém reflectir sobre o pano de fundo. As cimeiras do G8 são normalmente ricas em termos de planos grandiosos e débeis, no que respeita à sua implementação. Os optimistas dizem que há visão, ideias magnânimas, mas que escasseia o sentido prático, a ligação à terra. A inexistência de um secretariado executivo, que dê corpo às decisões tomadas, explicaria, na opinião de alguns analistas, a falta de seguimento concreto. A inércia.

Defendo uma opinião diferente. Não creio que o sistema internacional tenha necessidade de criar novos mecanismos de execução de programas. Antes pelo contrário. Convém reduzir, aglutinar e racionalizar as estruturas existentes. Quer se trate das Nações Unidas ou das instituições financeiras globais quer de outros organismos intergovernamentais, os instrumentos existem. Precisam, tão-somente, de serem reorganizados, para eliminar desperdícios, concentrar os meios e evitar as rivalidades inúteis.

As decisões do G8 têm o valor de um quadro de referência político. A responsabilidade pela sua materialização deve ser atribuída a uma instituição já operacional e com reconhecida competência na matéria. É esta ligação entre a decisão política e a estrutura de implementação que tem falhado. A cimeira da semana passada também não conseguiu ultrapassar esta dificuldade. Veja-se um exemplo concreto. Decidiu dar prioridade à agricultura e à segurança alimentar, mas não definiu quem deverá executar a decisão. Se será a  FAO, ou o Banco Mundial, ou uma outra das muitas organizações que também se ocupam deste tipo de problemáticas. Nos corredores de L' Aquila, os directores destes organismos andavam nos bicos dos pés e de chapéu na mão, cada um a puxar a brasa à sua sardinha. Cenas tristes.

Há quem diga que tudo isto acontece de propósito. Dizem-no os que duvidam da seriedade e do empenho de certos líderes do grupo. Que não seriam inspirados, no fundo da verdade, por preocupações universalistas. Que teriam apenas em mente a política caseira dos seus próprios países, bem como o ganho, em termos de imagem, que uma reunião com gente grande acarreta. Esses analistas pensam que, infelizmente, muitas das iniciativas fazem apenas parte do circo internacional, que tão caro é a certos actores megalómanos. Nesta perspectiva, o G8 não representaria o que deveria ser: um fórum de concertação entre países que têm responsabilidades estratégicas na condução dos assuntos globais. No encaminhamento do futuro de todos nós. Por isso, os compromissos são assumidos com a certeza de que não são para cumprir.

Também neste caso, discordo. Haverá certamente gente que não deveria estar no G8. Mas temos que ser pragmáticos. Assim, a posição mais correcta parece-me ser a de confrontar os líderes com as suas promessas e criar a pressão cívica necessária para que o prometido seja devido.

Uma outra questão tem que ver com a representatividade do G8. É um facto que o grupo surgiu, na sua essência, de uma transposição da filosofia da Guerra Fria para a área das relações económicas internacionais. Basta lembrar que só muito recentemente abriu as portas à Rússia. L'Aquila teve o mérito de mostrar que uma fórmula restrita, reduzida a um pequeno círculo, tem os dias contados.

É capital continuar a insistir no alargamento do grupo, bem como na sua conexão com a reforma das Nações Unidas. Se a composição do Conselho de Segurança, na sua função de paz, parece difícil de alterar, talvez a solução seja a de criar um conselho paralelo, mais alargado, para as questões fundamentais da economia mundial e do desenvolvimento. Seria um passo em frente de grande relevo.