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Teremos, um pouco por toda a parte, uma nova classe de privilegiados e uma massa de novos pobres

Victor Ângelo

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Os tempos recentes provocaram alterações profundas nas relações internacionais, transformando o mundo num emaranhado complexo e instável. Com a realidade em constante mutação, os modelos de análise tornam-se rapidamente obsoletos e precisam de ser repensados com frequência.

Os anos 80 ficaram marcados pelo ressurgimento do liberalismo económico e político bem como pela corrosão das ideologias de inspiração comunista. Reagan, Thatcher, João Paulo II, Walesa e Gorbachev foram os expoentes dessa época. O socialismo democrático, enquanto alternativa, foi sol de pouca dura, com Mitterrand, e outros, aos tiros nos pés e a abrir as portas a uma Terceira Via, que era apenas um disfarce liberal.

Na década de 90, a política foi profundamente influenciada pelo fim da Guerra Fria e pela redescoberta do indivíduo como foco da governação, do desenvolvimento e da segurança. Os relatórios anuais da ONU sobre o desenvolvimento humano tornaram-se os documentos teóricos de referência. Foi também durante esse período que as grandes problemáticas globais - ambiente, direitos humanos, igualdade de género e a erradicação da pobreza - levaram à organização de cimeiras mundiais e à definição de objetivos partilhados pela humanidade.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 moldaram o primeiro decénio do novo século. As atenções focalizaram-se na luta contra o terrorismo sem fronteiras. As relações internacionais passaram a ser medidas por essa bitola. A invasão do Iraque e as campanhas militares do Ocidente no Afeganistão foram as facetas mais marcantes da época. Em complemento, estabeleceram-se alianças contranatura entre os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e outros com a Líbia de Kadhafi e certos ditadores de países muçulmanos, que se apresentavam como bastiões capazes de travar o avanço do fundamentalismo violento. Foi igualmente uma década de expansão sem precedentes da comunicação, através das redes sociais. Daqui resultaram três dimensões que iriam marcar, de modo determinante, as relações dos cidadãos com a política, a nível local e global: o acesso sem entraves à informação, o reconhecimento do valor primeiro da liberdade de opinião e a oportunidade da participação, ou seja, a internet tornou possível a qualquer um produzir opiniões e publicar comentários.

Que acontecimentos vão definir a década de agora? Antevejo vários, incluindo os seguintes: a Primavera Árabe, a dicotomia social resultante da globalização e a fratura da Europa.

As transformações democráticas no mundo árabe terão, certamente, uma influência decisiva na política internacional. Além de darem origem a um novo equilíbrio entre as duas margens do Mediterrâneo, servirão para lembrar que a dignidade humana é um valor essencial. Representam, acima de tudo, um despertar da consciência nacional árabe e uma afirmação da sua independência. É preciso entender isso, para não se cometer o erro de pensar que a receita aplicada pela comunidade internacional noutros cantos do globo, em Timor, por exemplo, pode ser automaticamente transplantada para Trípoli.

A globalização vai aprofundar as diferenças entre as famílias que têm preparação profissional para aproveitar as vantagens de um mundo aberto e as outras. Teremos, um pouco por toda a parte, uma nova classe de privilegiados e uma massa de novos pobres.

Finalmente, se a liderança europeia continuar a não estar à altura, as relações internacionais irão sofrer as consequências de uma divisão entre a Europa a norte e a sul do Reno. Ambos os lados terão contribuído de modo irresponsável para isso.