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Os tremores do G8

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"Discute-se África com o mesmo empenho com que se põe uma gravata: só para dar cor"

Victor Ângelo

Esta é mais uma semana Berlusconi. Com a reunião do G8 a decorrer em L'Aquila, o Presidente do Conselho Italiano procura fazer esquecer dois terramotos recentes: o de Abril, que destruiu a cidade, e o mais recente, com meninas à mistura, que continua a fazer tremer a sua imagem. Por estas razões, e também com os olhos postos nas manigâncias que se preparam em Bruxelas, o homem precisa de uma cimeira com resultados. Mais. Se o papel de corretor das grandes questões internacionais for desempenhado com êxito, Berlusconi ganha peso na União Europeia, numa altura de facas afiadas, quando se disputam lugares de topo. Fora tudo isso, para que serve a cimeira do G8? É uma pergunta difícil de responder. Sabe-se quais são os temas centrais: a crise económica internacional, o comércio e as negociações de Doha, a preparação da conferência de Copenhaga sobre as alterações climatéricas, o desenvolvimento e a luta contra o terrorismo. A África estará, como de costume, na ordem do dia. É um ritual de agenda, sem efeitos práticos. Todas as promessas feitas, nos últimos anos, foram sistematicamente esquecidas. Discute-se África com o mesmo empenho com que se põe uma gravata: só para dar cor. Na área das relações internacionais, o Irão, a Coreia do Norte e o Afeganistão são os pontos quentes. Têm ainda a enorme vantagem, na perspectiva de alguns líderes,  de empurrar para fora da agenda a questão da Palestina. Uma problemática melindrosa, que exige definições de posições que ninguém tem a coragem de tomar. 

A verdadeira utilidade da cimeira, que desta vez vai reunir cerca de quarenta personalidades, entre líderes e responsáveis de organizações internacionais, sem contar com os milhares de funcionários e de jornalistas, está na sua preparação. É um processo longo, que engloba várias reuniões ministeriais e uma multiplicidade de encontros políticos. Daí saem novas maneiras de encarar as grandes questões do mundo. Avanços no pensamento político global. Mesmo que muitas das propostas nunca venham a conhecer uma sombra de aplicação, servem, pelo menos, como orientações genéricas para os que têm responsabilidades operacionais. E como material de estudo, para quem se interessa pelas relações internacionais. O processo permite igualmente criar laços entre altos funcionários e políticos. Esses contactos são sempre úteis, nas relações entre os Estados.

Um dos líderes, presente no encontro, poderá apresentar um ar ausente. Preocupado com o seu próprio futuro. O Parlamento Europeu acaba de decidir o adiamento para o Outono da votação sobre Durão Barroso. A oposição à sua reeleição une agora os Socialistas, os Verdes e os Liberais. Não invalida a hipótese de um segundo mandato, mas cria novos riscos. Nunca se sabe. A política gira à volta de compromissos, principalmente quando há um impasse  sobre um nome. Se o problema se atascar, poderá ser necessário arranjar um candidato alternativo, que apazigúe as várias famílias políticas.

Esperemos que não. Mas, vamos ter um período de grande inquietação em Bruxelas. Muito provavelmente nenhuma decisão será tomada antes do referendo irlandês. Nessa altura, daqui a quase quatro meses, o xadrez político europeu será diferente. Haverá, então, que decidir sobre a presidência da Comissão, mas também sobre a presidência da União, no quadro do Tratado de Lisboa, e sobre o posto de ministro dos negócios estrangeiros da Europa. A importância dos equilíbrios geográficos estará na mente de todos, será um factor determinante. A especulação sobre os nomes possíveis vai dominar os próximos meses. Voltarei ao assunto.

O futuro, quer se trate da execução das decisões do G8 quer do clima político de Bruxelas, levanta algumas interrogações. A única coisa que parece certa, para já, é que a fase sueca da Europa, que agora começou, vai ser muito afectada pelas guerrinhas à volta de nomes e cargos. É pena. A Suécia vinha com intenções de fazer trabalho.