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O tigre dominante

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Para Putine, as eleição presidenciais de 2012 não representam qualquer desafio de monta. Estão ganhas, mesmo antes do início do jogo

Vladimir Putine tem andado numa roda-viva diplomática. Só na semana passada, depois de presidir a uma convenção internacional sobre o futuro dos tigres, recebeu o primeiro-ministro chinês, esteve em Dushambé, a capital do Tajiquistão, para participar no encontro de líderes da Organização de Cooperação de Xangai, e acabou em Berlim, na conferência anual dos empresários alemães. E fez mais: escreveu um artigo de opinião, sobre uma ideia grandiosa, mas impraticável, nas décadas mais próximas, uma espécie de união económica que iria de Lisboa a Vladivostoque. E deu várias entrevistas.

Esta semana, a atividade inclui a cimeira, em Astana, a capital do Cazaquistão, da Organização para a Cooperação e a Segurança na Europa, bem como a preparação da próxima reunião de alto nível entre a União Europeia e a Rússia, marcada para 7 de dezembro, em Bruxelas.

Tanto frenesim, para quê? Putine terá, sem dúvida, os olhos postos nas eleições presidenciais de 2012. Embora essas eleições, nas circunstâncias políticas internas, não representem qualquer desafio de monta. Estão ganhas, mesmo antes do início do jogo. O poder atual não deixa margem de manobra à oposição. Dmitry Medvedev terá cumprido o interregno, quatro rápidos anos, sem mais ambições do que esperar pelo futuro.

Sendo 2012 apenas uma formalidade, que tem de ser cumprida, as preocupações domésticas de Putine relacionam-se, acima de tudo, com o estado da economia. A aceitação popular depende da melhoria contínua das condições económicas das famílias. É a prosperidade, não a democracia, que consolida a autoridade do grupo dirigente. Quando o petróleo e o gás, as duas principais fontes de divisas, estavam muito valorizados pelos mercados, o Kremlin tinha a vida facilitada. Os últimos dois anos, com a estagnação da economia internacional, e a fuga de capitais russos para destinos considerados mais seguros, mostraram a fragilidade do modelo que Putine tem vindo a construir. Assim, uma parte importante da ofensiva diplomática atual está relacionada com a procura de novos laços económicos. Nuns casos, na Europa sobretudo, para atrair investimentos que permitam modernizar a estrutura produtiva do país. Noutros, para abrir mercados. Essa é a razão de ser da cooperação com a China.

Uma outra preocupação tem que ver com a política externa. Putine tem uma visão do mundo formada no tempo da Guerra Fria. Continua a pensar em termos de esferas de influência geopolítica. Por isso, vê a Ásia Central, o Cáucaso, o Norte do Pacífico e a zona do mar Negro como as áreas em que a intervenção russa não deve ser contestada. Como também considera qualquer expansão da NATO para leste como uma manobra hostil. Países como a Geórgia nunca conseguirão aderir à Aliança Atlântica enquanto Moscovo considerar que a adesão fere os seus interesses estratégicos. Muitas das diligências diplomáticas recentes vão, por isso, no sentido de marcar o terreno geopolítico. Como se destinam, igualmente, a tentar cortar a ligação de segurança entre a Europa e os EUA. Putine não consegue libertar-se da imagem que define os Estados Unidos como o adversário principal da Rússia. Mais ainda. Pensa que os EUA poderão, a prazo, estar interessados em desestabilizar o regime russo. Finalmente, acredita que há líderes europeus que seriam capazes de engolir o engodo de que a segurança da Europa deve assentar apenas nos países da região.

O entendimento destas questões permite dar sentido às parcerias políticas com a Rússia. Mesmo quando, à cabeça dos projetos, apareça apenas o rosto conciliador de Medvedev. Por detrás, existe o acordo do tigre dominante.